É sábado à noite, umas dez e meia, não sei ao certo, faz um
calor do caralho e ela está tomando chocolate quente e lendo um livro abstrato
demais, um típico romance adolescente que já leu várias vezes e a fez chorar e
que, agora, não faz mais sentido. Ela tem os olhos cinzas mais lindos que já vi
na vida, mas eles parecem mortos, estáticos, sempre vidrados em algum objeto
enquanto a cabeça insiste em pensar em coisas – ou pessoas? – que já
significaram muito e... Hey, onde é que
estão?
Quem é que fica sozinha, numa poltrona velha, ao lado do
telefone – que nunca toca – esperando alguém, não se sabe quem, dar algum
sinal, alguma luz, uma palavra, um gesto, bebendo chocolate quente nesse país
tropical em pleno verão? Ela. As luzes lá fora piscam, o som das buzinas, as
conversas animadas, as risadas, tudo inunda o apartamento e agora, mais que nunca,
sente-se sozinha, abandonada. Nunca teve alguém por muito tempo, Psicose é seu sobrenome,
quem a aguentaria? Por que nasceu assim? Com essa linha de raciocínio meio
poeta, meio louca, complicada demais pra um cara normal.
Está fitando a janela, há alguém apoiado no parapeito num
prédio vizinho, eles se sorriem e há alguma magia implícita ali. Ele é um homem
bonito, não bonito como a maioria dos bonitos, ele tem algo a mais, seus olhos
são negros como a noite e contrastam com a pele clara, os cabelos desgrenhados
e o peito desnudo. Olhando assim, de longe, ele... ele parece tão bonito. Já é
tarde, ela vai se deitar e sonhar com o homem que a sorriu, o homem que a
dedicou um sorriso depois de tanto tempo sem admirar sequer o seu.
Amores nascem em madrugadas como essa, para mulheres como
ela, que vivem tão amargamente.
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