domingo, 28 de agosto de 2011

Respiração

E, então - não de forma repentina como pensariam - um vazio inundou-lhe e sentiu-se doer, uma dor daquelas maiores que qualquer joelho ralado, era como se sua alma sangrasse e poças desse sangue fossem formadas no chão. Sabe, daqueles vazio que nada preenche, nada ameniza. Só ele.
Ela discou o número dele, e ao ouvir-lhe do outro lado da linha naquele "alô, alô, alô" desesperado a fazia bem. Algum tempo naquele silêncio, ele soltou:
- Sei que és tu, Bia.
- Como sabes?
- Reconheci tua respiração...
- Então por que não disseste algo antes?
- Ouvir tua respiração me faz bem.
[Silêncio]
- Por que paramos de nos falar? - ela perguntou-lhe.
- Eu não sei, sei apenas que sinto falta de sentir meu coração acelerar quando te vejo.
- Também sinto falta de nós dois, muita, pra falar a verdade, bem mais que deveria.
- Eu te amo.
Então ficaram ali apenas a ouvir a respiração um do outro, ela de um lado, a dor aliviada, ele do outro apenas sentindo o amor a inundar-lhe.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Faixa 15

Bati à porta e ela convidou-me a entrar. Entravam alguns raios de sol daquele fim de tarde, aos poucos esfriava, mas o coração pulsava acelerado ao lado dela.
- Não lhe vi mais - ela disse.
- É, precisei me afastar por um tempo.
- Eu não queria que fosse assim.
- O quê?
- Nós - ela pausa, respira fundo e diz cabisbaixa - se é que ainda existe nós.
- Claro que existe.
 [Silêncio]
- Faixa 15... é aquele blues, a nossa música?
- É, o ouço todos os dias, traz-me você, nem que seja só um pouquinho.
- Ele nos traz bons momentos - pausa -, os melhores momentos...
- De nós dois? - ela o interrompe.
- Também, mas eu ia dizer "da vida".

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Fitando calçadas

Os carros passavam apressados e eu os fitava da janela, fitava também aquelas calçadas movimentadas, e aqueles rostos desconhecidos, mas eu procurava por um, o dele, sabia que não encontraria, mas o coração continuava a pulsar, ele pedia, implorava para que eu não parasse de fitar aquelas calçadas esburacadas, o tolo do coração ainda tinha esperanças em encontra-lo por acaso, assim, no meio da rua, numa esquina, ou dentro de um carro.

Vodca

- Ei, moço, fuma?
- Quê? - eu não tinha ouvido.
- Fuma?
- Não, não.
- E beber, cê bebe?
- Às vezes.
- Quer? - ele me estendeu um copo de vodca.
-Uhum - respondi tomando-lhe o copo.
Dei um gole e senti a vodca descendo a garganta, umas doses depois já não me incomodava com o cheiro nojento daquele cigarro que ele fumava e inalava minhas narinas.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Sobre a falta de assunto

- Eu gosto de conversar com você...
- Eu também, mas e quando o assunto acabar?
- Eu falo do que eu gosto.
- E quando você terminar?
- Você fala do que gosta.
- E quando eu também terminar?
- Falaremos do que gostamos de fazer juntos.
- E quando isso acabar também?
- Falaremos sobre não ter nada pra falar.
- Vai ser bom?
- Vai.
- Como sabe?
- Está bom agora não está?
- Está, mas e daí?
- É exatamente isso que estamos fazendo agora. – o outro sorriu.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Era mais que saudade, era amor, e por mais que ele tentasse esquecer, um coração pulsava lá dentro por ele.Ela tentava apenas sobreviver: comer, dormir, essas coisas, ela tentava viver mecânicamente, e realmente era o que parecia, ela fingia não sentir, ela mentia a si mesma que estava bem, mas ela continuava chorando todas as noites, sozinha.