quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Nós


Senti um nó na garganta quando saíram os primeiros acordes daquela caixa de som fodida naquele bar chinfrim. Conhecia todas as notas tocadas, o baixo era bem tocado, a guitarra sibilava ao fundo e o vocalista sussurrava algumas palavras.
Fechei os olhos e tomei um gole de whisky, acompanhava a melodia com batidas de dedos no balcão, mas eram inaudíveis diante aqueles berros vindos de homens que discutiam entre si, forçando pra serem ouvidos, arrebentando suas cordas vocais como se ‘ganha quem gritar mais alto’, mas eu permaneci ali, imóvel, ouvindo aquela doce melodia que me lembrava ela.
Assim que a música parou, sai pela porta e vi a nevoa encobrir as ruas quase desertas, acendi um cigarro e senti uma lágrima escorrer. ‘O que lhe deixou assim?’, perguntei a mim mesmo, respondi sem querer admitir ‘Não sei, nada’. Eu sabia que não era nada, era a ausência dela que gritava alto aqui no peito.
Andei até chegar a uma praça mal iluminada, ventava forte e os galhos e folhas formavam um balé sincronizado. ‘Logo, logo você vai esquecê-la. Ela nem deve lembrar mais de ti’, repetia exaustivamente a mim mesmo no intuito de enfiar no coração essas coisas óbvias, mostrar pra ele que já cansei de sofrer por amor.
Momentos depois eu já estava com o número dela discado e apertava o ‘ligar’
“Porra, por que é que cê tá me ligando a essa hora?”, dizia ela com uma voz agressiva e meio sonolenta.
“Queria ouvir sua voz”, respondi sem saber o que falar.
“Pronto, já ouviu. Adeus”
“Ei, calma, não desliga. Eu te amo, minha pequena”, desliguei sem ouvir – ou saber – a resposta.
Um minuto depois o telefone tocava.
"Eu também te amo, meu anjo", era ela dizendo o que meu coração a tempos queria escutar.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Sufocado


De manhã você apenas escovou os dentes, tomou café e vestiu seu terno. Trabalhou exaustivamente o dia inteiro e ainda está no escritório numa sexta-feira às dez da noite.
Entra no elevador, este que desce pouco mais de dois andares e enguiça entre o décimo primeiro e o décimo segundo. “Merda!” esbraveja chutando as portas de aço. Grita o mais alto que pode, mas ninguém o ouvirá: todos já foram embora. Você se seta no chão e acaba tirando um cochilo, ao acordar ainda se vê preso e esmurra o espelho. Agora sua mão sangra, revira a pasta em busca de algo para limpar todo aquele sangue que escorre, mas acaba limpando com o paletó. Quando revirou a pasta encontrou um relatório solicitado a semanas e que planeja entregar amanhã, acha também um maço de cigarros, tira um e acende, mas logo apaga, aquilo contaminaria o ar. Você tenta abrir a janela superior do elevador , mas é em vão, és muito baixinho para alcança-las. Esbraveja mais uma vez e chuta as paredes de aço. Amanhã talvez encontrem-no – vivo ou morto – jogado no elevador.
Você não tem esposa mais e vocês nunca tiveram filhos. Sua família mora longe e seus pais morreram a muito tempo – câncer. Não tem amigos e há tempos já se formou. Ninguém sentirá sua falta.
Então você se lembra de toda a comida que está na geladeira, a zona que está seu quarto, a louça que não teve tempo de lavar, o banheiro que esqueceu de enxugar. Quanta coisa pra fazer! Lembra-se de seus medos, de todas as perdas, de tantas decepções. A mulher maravilhosa que tinha e deixara ir, os filhos que planejaram e não tiveram, todas as vezes que a traiu. Quanta coisa o faz o tolo que é! Lembra-se de como era burro e na época do colégio só pensava em brincadeiras e garotas. Pensa em quantas vezes criticou os professores , quantas vezes ficou na ‘berlinda’ por curtir demais. Você nunca foi o melhor em nada.
Agora, aos prantos, você acende um cigarro e traga calmamente.  “Você é o lixo tóxico da sociedade”. Vive por esse emprego de merda. Seu apartamento é alugado e cheira a mofo. Anda de metrô. Você não conseguiu nada na vida.
Você se esforça novamente para abrir a janela e desiste, sabe que não conseguirá com essa pouca estatura. Senta-se no chão e continua a encher o ar com todas aquelas porcarias que enfiam no cigarro. Ele já está quase no fim. Você morrerá dentro de pouco mais de dez minutos, ninguém resiste mais que isso a um local fechado com tanta fumaça comprimida. Amanhã, quando chegarem  e virem o elevador emperrado chamarão os bombeiros e o encontrarão jogado ao chão desse elevador. Estará sufocado. O zelador do prédio dirá que você sempre era o último a ir embora e contará sobre seu péssimo hábito de fumar. Haverá interrogatório “Não tem botão de emergência nesse elevador?” “Tem. Mas ele não deve ter visto.”
Você nunca foi esperto.

p.s.¹: Desculpe a ausência, mas eu realmente estava sem inspiração esse últimos dias. 
p.s.²: Quem quiser me acompanhar, estou aqui todos os dias. 

sábado, 5 de novembro de 2011

Constrastes


A madrugada era silenciosa, exceto pelo ‘toc-toc’ daquele salto agulha na calçada. O céu era inquietantemente cinza. Ela ia andando rápido. Tinha fartas olheiras que denunciavam a noite sem dormir. A maquiagem forte já escorria-lhe o rosto. Ester vestia um casaco masculino preto por cima de seu vestido de mesma cor, os sapatos eram vermelhos, de uma vermelhidão que quebrava a sobriedade daquela madrugada nebulosa.
Ela jogou o resto daquele cigarro no chão e atravessou a rua, que a esta hora,  estava deserta, abraçou-se tentando conter o frio, mas fora em vão, já que a garoinha começava a cair. Continuou a andar , ouviu um barulho de carro cada vez mais próximo, ela acelerou os passos, quase correndo. Olhou para trás. Era ele, Filipe, seu pequeno. Ele buzinou convidando-a a entrar no carro. Eufórica, ela atendeu ao pedido, deu-lhe um beijo, logo após, jogados no banco traseiro sentiam o corpo gélido dela contrastando com o cálido dele. Fizeram amor ali, no meio daquela praça, dentro do carro prata dele, ao som da chuva que caia lá fora. A noite em claro que passaram não fora suficiente, queriam-se mais, necessitavam-se mais. Ficaram ali até o primeiro raio de Sol surgir no horizonte.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Como em contos-de-fada


Nossa pequena Bea acaba de acordar, ela levanta, ajeita aqueles belos cachinhos e arruma sua roupinha de babados.  Suspira enquanto desce do carro, esse será um dia cheio. A pequenina é educada e cumprimenta todos os familiares presentes, a tia, como sempre aperta suas bochechas deixando-as vermelhas. Bea ouve aquela mesma ladainha de sempre ‘ah, como você cresceu’, o que é pura verdade, nossa menina cresceu muito, digamos que ficou até mais bonitinha. Seu primo, que acabara de chegar de viagem lhe trouxe uma bonequinha, sabe, daquelas que parece bebê de verdade? A garota agradece-lhe com um beijo que fez ‘chuac’ e sobe em disparada pelas escadas.
Beatriz entra em um quartinho e brinca, brinca, brinca, como se não existisse outro mundo, só aquele, só o dela, só aquele em que ela era mamãe e aquela bonequinha a filhinha. Ela a carrega no colo, nina e faz cafuné, assim mesmo, como se tudo fosse fácil, como se os contos-de-fada fossem reais. Ah, quem dera  fosse, quem dera.