Senti um nó na garganta quando saíram os primeiros acordes
daquela caixa de som fodida naquele bar chinfrim. Conhecia todas as notas
tocadas, o baixo era bem tocado, a guitarra sibilava ao fundo e o vocalista
sussurrava algumas palavras.
Fechei os olhos e tomei um gole de whisky, acompanhava a
melodia com batidas de dedos no balcão, mas eram inaudíveis diante aqueles berros
vindos de homens que discutiam entre si, forçando pra serem ouvidos,
arrebentando suas cordas vocais como se ‘ganha quem gritar mais alto’, mas eu
permaneci ali, imóvel, ouvindo aquela doce melodia que me lembrava ela.
Assim que a música parou, sai pela porta e vi a nevoa
encobrir as ruas quase desertas, acendi um cigarro e senti uma lágrima
escorrer. ‘O que lhe deixou assim?’, perguntei a mim mesmo, respondi sem querer
admitir ‘Não sei, nada’. Eu sabia que não era nada, era a ausência dela que
gritava alto aqui no peito.
Andei até chegar a uma praça mal iluminada, ventava forte e
os galhos e folhas formavam um balé sincronizado. ‘Logo, logo você vai
esquecê-la. Ela nem deve lembrar mais de ti’, repetia exaustivamente a mim mesmo
no intuito de enfiar no coração essas coisas óbvias, mostrar pra ele que já
cansei de sofrer por amor.
Momentos depois eu já estava com o número dela discado e
apertava o ‘ligar’
“Porra, por que é que cê tá me ligando a essa hora?”, dizia
ela com uma voz agressiva e meio sonolenta.
“Queria ouvir sua voz”, respondi sem saber o que falar.
“Pronto, já ouviu. Adeus”
“Ei, calma, não desliga. Eu te amo, minha pequena”,
desliguei sem ouvir – ou saber – a resposta.
Um minuto depois o telefone tocava.
"Eu também te amo, meu anjo", era ela dizendo o que meu coração a tempos queria escutar.