sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Sufocado


De manhã você apenas escovou os dentes, tomou café e vestiu seu terno. Trabalhou exaustivamente o dia inteiro e ainda está no escritório numa sexta-feira às dez da noite.
Entra no elevador, este que desce pouco mais de dois andares e enguiça entre o décimo primeiro e o décimo segundo. “Merda!” esbraveja chutando as portas de aço. Grita o mais alto que pode, mas ninguém o ouvirá: todos já foram embora. Você se seta no chão e acaba tirando um cochilo, ao acordar ainda se vê preso e esmurra o espelho. Agora sua mão sangra, revira a pasta em busca de algo para limpar todo aquele sangue que escorre, mas acaba limpando com o paletó. Quando revirou a pasta encontrou um relatório solicitado a semanas e que planeja entregar amanhã, acha também um maço de cigarros, tira um e acende, mas logo apaga, aquilo contaminaria o ar. Você tenta abrir a janela superior do elevador , mas é em vão, és muito baixinho para alcança-las. Esbraveja mais uma vez e chuta as paredes de aço. Amanhã talvez encontrem-no – vivo ou morto – jogado no elevador.
Você não tem esposa mais e vocês nunca tiveram filhos. Sua família mora longe e seus pais morreram a muito tempo – câncer. Não tem amigos e há tempos já se formou. Ninguém sentirá sua falta.
Então você se lembra de toda a comida que está na geladeira, a zona que está seu quarto, a louça que não teve tempo de lavar, o banheiro que esqueceu de enxugar. Quanta coisa pra fazer! Lembra-se de seus medos, de todas as perdas, de tantas decepções. A mulher maravilhosa que tinha e deixara ir, os filhos que planejaram e não tiveram, todas as vezes que a traiu. Quanta coisa o faz o tolo que é! Lembra-se de como era burro e na época do colégio só pensava em brincadeiras e garotas. Pensa em quantas vezes criticou os professores , quantas vezes ficou na ‘berlinda’ por curtir demais. Você nunca foi o melhor em nada.
Agora, aos prantos, você acende um cigarro e traga calmamente.  “Você é o lixo tóxico da sociedade”. Vive por esse emprego de merda. Seu apartamento é alugado e cheira a mofo. Anda de metrô. Você não conseguiu nada na vida.
Você se esforça novamente para abrir a janela e desiste, sabe que não conseguirá com essa pouca estatura. Senta-se no chão e continua a encher o ar com todas aquelas porcarias que enfiam no cigarro. Ele já está quase no fim. Você morrerá dentro de pouco mais de dez minutos, ninguém resiste mais que isso a um local fechado com tanta fumaça comprimida. Amanhã, quando chegarem  e virem o elevador emperrado chamarão os bombeiros e o encontrarão jogado ao chão desse elevador. Estará sufocado. O zelador do prédio dirá que você sempre era o último a ir embora e contará sobre seu péssimo hábito de fumar. Haverá interrogatório “Não tem botão de emergência nesse elevador?” “Tem. Mas ele não deve ter visto.”
Você nunca foi esperto.

p.s.¹: Desculpe a ausência, mas eu realmente estava sem inspiração esse últimos dias. 
p.s.²: Quem quiser me acompanhar, estou aqui todos os dias. 

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