De manhã você apenas escovou os dentes, tomou café e vestiu
seu terno. Trabalhou exaustivamente o dia inteiro e ainda está no escritório
numa sexta-feira às dez da noite.
Entra no elevador, este que desce pouco mais de dois andares
e enguiça entre o décimo primeiro e o décimo segundo. “Merda!” esbraveja
chutando as portas de aço. Grita o mais alto que pode, mas ninguém o ouvirá:
todos já foram embora. Você se seta no chão e acaba tirando um cochilo, ao
acordar ainda se vê preso e esmurra o espelho. Agora sua mão sangra, revira a
pasta em busca de algo para limpar todo aquele sangue que escorre, mas acaba
limpando com o paletó. Quando revirou a pasta encontrou um relatório solicitado
a semanas e que planeja entregar amanhã, acha também um maço de cigarros, tira
um e acende, mas logo apaga, aquilo contaminaria o ar. Você tenta abrir a
janela superior do elevador , mas é em vão, és muito baixinho para alcança-las.
Esbraveja mais uma vez e chuta as paredes de aço. Amanhã talvez encontrem-no –
vivo ou morto – jogado no elevador.
Você não tem esposa mais e vocês nunca tiveram filhos. Sua
família mora longe e seus pais morreram a muito tempo – câncer. Não tem amigos
e há tempos já se formou. Ninguém sentirá sua falta.
Então você se lembra de toda a comida que está na geladeira,
a zona que está seu quarto, a louça que não teve tempo de lavar, o banheiro que
esqueceu de enxugar. Quanta coisa pra fazer! Lembra-se de seus medos, de todas
as perdas, de tantas decepções. A mulher maravilhosa que tinha e deixara ir, os
filhos que planejaram e não tiveram, todas as vezes que a traiu. Quanta coisa o
faz o tolo que é! Lembra-se de como era burro e na época do colégio só pensava
em brincadeiras e garotas. Pensa em quantas vezes criticou os professores ,
quantas vezes ficou na ‘berlinda’ por curtir demais. Você nunca foi o melhor em
nada.
Agora, aos prantos, você acende um cigarro e traga calmamente.
“Você é o lixo tóxico da sociedade”.
Vive por esse emprego de merda. Seu apartamento é alugado e cheira a mofo. Anda
de metrô. Você não conseguiu nada na vida.
Você se esforça novamente para abrir a janela e desiste,
sabe que não conseguirá com essa pouca estatura. Senta-se no chão e continua a
encher o ar com todas aquelas porcarias que enfiam no cigarro. Ele já está
quase no fim. Você morrerá dentro de pouco mais de dez minutos, ninguém resiste
mais que isso a um local fechado com tanta fumaça comprimida. Amanhã, quando chegarem e virem o elevador emperrado chamarão os
bombeiros e o encontrarão jogado ao chão desse elevador. Estará sufocado. O
zelador do prédio dirá que você sempre era o último a ir embora e contará sobre
seu péssimo hábito de fumar. Haverá interrogatório “Não tem botão de emergência
nesse elevador?” “Tem. Mas ele não deve ter visto.”
Você nunca foi esperto.
p.s.¹: Desculpe a ausência, mas eu realmente estava sem inspiração esse últimos dias.
p.s.²: Quem quiser me acompanhar, estou aqui todos os dias.
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