quarta-feira, 28 de março de 2012

Re-amar


E já é de manhã, abre os olhinhos devagar, quer dormir um pouco mais, mas não dá. A luz que entra pela janela anuncia o dia lindo que brilha lá fora. Encara o teto devagar, arrasta o cobertor e pensa nele, porque é isso que as pessoas apaixonadas fazem ao acordar, pensar ‘nele’ e desejar que esteja bem e que, por hoje, aconteçam coisas boas.
Levanta, toma banho, escova os dentes, veste roupa, toma café, lê jornal. Nada de novo, o mundo está em guerra, a economia está crescendo, mais gente foi morta por bandidos, mais bancos foram roubados, já virou rotina. Sai às pressas, pega um táxi, vai em direção ao trabalho, há muito o que fazer, observa as pessoas tão apressadas quanto ela, algumas andando rápido, quase correndo, é tudo um caos. 
Algumas quadras e está na porta do trabalho, cumprimenta o porteiro, um ‘oizinho’ pra secretária, liga o computador e dá início a mais uma jornada estressante e cansativa de trabalho. Ao fim do expediente, quase sete da noite, ouve o celular vibrar e atende sem interesse no número desconhecido que acende no visor.
─ Alô?
─ Anna?
─ Oi. Quem ta falando?
─ Não reconheceu a voz?
─ Não - respondeu já impaciente.
─ Sou eu, Gustavo, Anna.
─ Ah. E por que resolveu me ligar? Lembrou da minha existência?
─ Eu nunca esqueci.
─ E por que nunca mais deu notícias?
─ Eu estava tentando te esquecer, Anna.
─ E…
─ E que não consegui, é por isso que eu tô te ligando e é por isso que eu quero que você saia na porta do seu trabalho, estou te esperando.

domingo, 25 de março de 2012

Cotidiano


O jornal chega todo dia de manhãzinha. Entre as manchetes, mais números da guerra, os maus resultados da educação, a corrupção, pesquisa científica, algo sobre um famoso que está no auge. Nenhuma novidade. Já estamos acostumados à guerra como números, mortes como números, a educação ruim não é problema, a corrupção virou rotina, pesquisas científicas são as melhores notícias do jornal. Lá na redação, ninguém escreve sobre essas coisas que acontecem no dia-a-dia, essas coisinhas pequenas bonitas, como o beijo que trocaram no cinema, a declaração de amor no estacionamento do shopping, o abraço entre amigos, ninguém fala disso no jornal e, sabe, é disso que o mundo ta precisando: otimismo, sem dar as costas ao problema, mas resolvendo-o com a certeza de que amanhã, o Sol vai brilhar outra vez, senão, a chuva irá cair, e teremos um novo dia, uma nova chance de sentir, de viver e sobrepor o que já aconteceu, cobrar dos políticos filhos-da-puta o dinheiro que roubaram da gente. Acontecer. 
O que consome é essa monotonia, acordar e saber o que lhe espera lá fora. Falta atitude. 
Sabe? O mundo pode ser divertido, mesmo com esse jeitinho meio torto, essa rotina meio chata, os problemas meio grandes e essa falta de novidade. Acorda, levanta, sorri e se apaixona pelo mundo, porque ele te espera do lado de lá daquela porta.

sábado, 24 de março de 2012

Sentimentalismo


Essa menina tem toda essa confusão no olhar, sente demais a pobrezinha, tem um coração dentro de si que emana meiguice. Ela é daquelas que sente-se segura no calor de um abraço apertado, e expressa-se por olhares, ora confusos, ora claros, ora muito sentimentalistas, ela implora por atenção. Pobrezinha.
De noitinha, a pequenina se encolhe num cantinho do quarto e chora todas as lágrimas que guardou ao longo do dia, todos os sapos que teve de engolir, então dorme, dorme feito anjo e acorda logo de manhãzinha com um sorriso no rosto, que vez por outra é falso, ela sabe que quando mostra-se sentimentos demais, a tendência é sofrer em dobro. Apesar da pouca idade, a nossa menina já sofreu demais, muitos creem que é frescurinha, coisa de menina-mimada, pode até ser que tenha um bucado de exagero nisso tudo, mas que dói, ah, disso não tenho dúvidas. Então, seu moço, cuida dela direitinho, viu? É só fazer chamego e dar beijinho ─ pra sarar as feridas de dentro.

sábado, 17 de março de 2012

Escritor alienado


Sexta-feira à noite. TV ligada passando um filme meloso com a Julia Roberts, notebook aberto no word, um bloquinho sem pautas com algumas palavras rabiscadas, garrafas de Smirnoff e o cinzeiro coberto pelas cinzas de um cigarro tragado por inteiro, sons dos carros lá fora, pessoas bêbadas dizendo bobagens na calçada - ou no meio da rua. 
- Caralho, eu não consigo escrever porra nenhuma! ─ esbravejou.
Arrancou mais uma folha do bloco, abriu mais uma página no notebook, desligou a televisão e bebeu mais um pouco, mandou alguns palavrões pela janela contra os bêbados jogados na calçada. Minutos depois estava vomitando as palavras sobre o papel, contando suas dores mais secretas, sua ânsia, seu vício em álcool e cigarros e a vontade proibida de pegar aquela mulher e beijar-lhe a boca até perder o ar. Coisa de escritor maluco, pensar que o pobre do leitor tem de entender suas alienações e conturbações internas.
Então, nosso escritor, com todo aquele sentimentalismo típico e a escrotidão embutida, finalmente, deu-se por si, o que faltava não era a familiaridade com as palavras ou a chamada ‘inspiração’, faltava o amor, não no coração ─, pois lá, tinha de sobra ─,faltava um amor pra chamar de seu. Uma moça bonita a quem poderia acariciar as pernas por debaixo do edredom.
Escritor alienado, que sacrifica  a própria vida afim de criar personagens que satisfaçam seus sonhos esdrúxulos mal-vividos.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Tristeza entalada


Escrito ao som de Passa e Fica - Scracho
Ela atravessa o bar, a tristeza entalada na garganta, o olhar pesado, um salto quinze e um tubinho preto. Linda e triste. Debruça-se no balcão e pede uma vodka, não uma dose, mas uma garrafa de vodka. Senta numa mesa no canto mais escuro do bar, à princípio vê-se os goles desesperados, tempo depois, ouve-se os soluços, sim, ela está chorando. Todos, até os mais bêbados e o atendente a encaram, ela apenas vira mais uma dose na boca. 
Permanece ali mais algum tempo e levanta-se abruptamente, passa no balcão e joga cem reais, sem esperar o troco. Leva o resto da bebida nas mãos e continua equilibrada no salto, desce a rua e vê-se de frente à casa do canalha filho-da-puta que a deixou nesse estado: chorosa, às traças. 
O relógio marca quase meia-noite, ela aperta várias vezes o interfone, ninguém atende, ela então, senta-se no meio-fio e chora mais uma vez, a maquiagem escorre junto às lágrimas e o bafo de bebida só aumenta após várias goladas.
Agora já passa de uma e meia da madrugada, o carro dele vira a esquina, ela reconhece, mas não levanta-se. Ele vem acompanhado de uns amigos, nenhuma mulher, ela verifica. O carro para a seu lado e o pobre moço desce desesperado:
- O que aconteceu com você, Anna?
 Ela não responde, apenas encara-o com olhares de piedade, ele a recolhe contra o peito e sussurra:
- Minha pequena, eu te amo, esquece aquela nossa briga, não foi nada. Eu amo você - agora considere como um grito em meio ao silêncio.
- Eu também amo você, Lucas - a pequenina voltou a chorar.
- Ei, minha Anna, não chora não, eu vou cuidar de você. Pra sempre.

sábado, 3 de março de 2012

Amor de metrô


A moça tinhas os cabelos negros à altura dos ombros, a pele clara e uma ansiedade perceptível até mesmo aos mais tolos naqueles olhinhos castanhos.
Ela havia pintado as unhas de vermelho e trazia em dois dos dedos da mão direita anéis, carregava uma gargantilha com pingente de bailarina e vestia calça jeans e blusa estampada. Tinha livros nas mãos e andava apressadamente - quase correndo - em direção ao metrô, que a essa hora estaria relativamente vazio, entrou e conseguiu um assento próximo à porta. Distraiu-se a observar as caricias entre uma senhora e um senhor logo à frente, ambos aparentavam possuir seus quase setenta anos e meia vida juntos. Já na próxima estação, adentraram alguns poucos passageiros, entre eles, um antigo amor, este que fez questão de sentar-se a  seu lado.
- Oi, Ester - enão esse era o nome da bela moça: Ester.
- Oi, Filipe. Quanto tempo! - não fazia tanto tempo assim, um mês, em média, numa festa de uma amiga em comum.
- É... - houve um silêncio perturbador, que logo foi corrompido - Como andam as coisas? 
- Bem, continuo respirando, não é mesmo? - respondeu sarcasticamente - E você, como vai?
- Respirando, como você disse - uma pausa e a continuação sussurrada - só sinto a sua falta.
- Eu também sinto sua falta - foi num sussurro que Ester o surpreendeu.
O silêncio tomou aqueles dois por alguns longos minutos até que a bela quebrou-o:
- Desço na próxima parada, tchau.
- Eu te ligo - quase gritou à moça, enquanto esta caminhava - É o mesmo número?
- sim, é sim, me ligue - Ester respondeu com um largo sorriso, este, que fora correspondido pelo belo rapaz.