sábado, 17 de março de 2012

Escritor alienado


Sexta-feira à noite. TV ligada passando um filme meloso com a Julia Roberts, notebook aberto no word, um bloquinho sem pautas com algumas palavras rabiscadas, garrafas de Smirnoff e o cinzeiro coberto pelas cinzas de um cigarro tragado por inteiro, sons dos carros lá fora, pessoas bêbadas dizendo bobagens na calçada - ou no meio da rua. 
- Caralho, eu não consigo escrever porra nenhuma! ─ esbravejou.
Arrancou mais uma folha do bloco, abriu mais uma página no notebook, desligou a televisão e bebeu mais um pouco, mandou alguns palavrões pela janela contra os bêbados jogados na calçada. Minutos depois estava vomitando as palavras sobre o papel, contando suas dores mais secretas, sua ânsia, seu vício em álcool e cigarros e a vontade proibida de pegar aquela mulher e beijar-lhe a boca até perder o ar. Coisa de escritor maluco, pensar que o pobre do leitor tem de entender suas alienações e conturbações internas.
Então, nosso escritor, com todo aquele sentimentalismo típico e a escrotidão embutida, finalmente, deu-se por si, o que faltava não era a familiaridade com as palavras ou a chamada ‘inspiração’, faltava o amor, não no coração ─, pois lá, tinha de sobra ─,faltava um amor pra chamar de seu. Uma moça bonita a quem poderia acariciar as pernas por debaixo do edredom.
Escritor alienado, que sacrifica  a própria vida afim de criar personagens que satisfaçam seus sonhos esdrúxulos mal-vividos.

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