quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Castanhos

Fixo-me em seus concêntricos olhos castanhos - vezenquando turvos, outras tão inocentes. Afogo-me. Perco-me em tanta inexatidão. Em teus círculos lindamente castanhos.
Tento enxerga-lhe além, mas só vejo linhas retas - atordoantes linhas retas. Linhas retas sem fim, castanhas.
Dei as costas e caminhei por ruas sombrias nessa noite sem estrelas lembrando-me dos caminhos tortuosos de seus olhos castanhos. Sentei-me no meio-fio e a chuva veio. Aqui estou: encharcada, turra, apaixonada. Ah, aqueles olhos castanhos.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Piegas


Meu pequeno,
Com certo receio começo a escrever-lhe esta carta, sei que talvez não a lerás, por que talvez ela nunca chegue até sua caixa de correio. Fito o relógio, são três da tarde, faz um dia lindo lá fora, mas sem você não tenho vontade de aproveita-lo. Ligo a TV e passa uma ridícula novela romântica antiga, no rádio toca uma música melosa. Tudo é amor por aqui.
Desde que você se foi, as cortinas perderam a cor, o chocolate ficou sem sabor, o céu ficou cinza e todas as canções tristes me descrevem. O que é que você fez comigo?
Quero que saibas que todos os móveis estão no mesmo lugar e o meu café continua amargo, porém nossos livros estão empoeirados e a carta que deixaste está amarelada – são as marcas do tempo.
Ando escrevendo muitas cartas e contos românticos, talvez porque eu precise ocupar esse oco com algo que não seja lembranças de ti. Tinhas razão, meu bem: sou piegas, sou uma fanática por amor.
Com todo o meu amor,
Sua Júlia.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Eternamente seu

Estava sentada no terceiro degrau que direcionava-se à porta principal, observava o horizonte: o Sol se pondo entre as montanhas e refletindo naquele céu tão azulzinho cores magníficas. Tinha em mãos uma carta que havia acabado de tirar da caixa de correio. Era dele. Sentiu o coração acelerar e uma lágrima escorreu. Sentia uma saudade filha-da-puta daqueles olhos pretos e o sorriso bobo. Receou em abri-la, mas acabou não se aguentando.
"21 de setembro de 2011.
   Minha doce Bea, 
Meus dias andam monótonos e chatos, sinto falta de tuas piadas toscas que faziam-me rir. Tenho trabalhado muito e recebi um aumento de 20%, o pessoal do jornal é incrível e tenho tido mais espaço para meus textos medíocres. Aluguei um apartamento velho e com cheiro de mofo, mas é o que posso pagar, ele tem uma pequena sacada, de onde vejo, acompanhado por uma xícara de café, o pôr-do-sol e lembro de como gostavas de observá-lo. Ainda gostas?
Amor, saibas que li todas as 12 cartas que mandaste, a última, em especial, releio todos os dias assim que acordo e antes de dormir, faz-me sorrir feito bobo todas as vezes, minha pequena. Nela disse-me que lês minha coluna no jornal, então, amor, gostas? Aqueles textos melosos foram escritos pensando em ti, não tiro-te da cabeça um minuto sequer.
Como andam as coisas por ai? Já acabaras de escrever aquele livro de romance que começaras?
Minha pequena Bea, sinto sua falta a todo momento, tua pele macia, teus olhos cor-de-mel, tua boca quente e teus cabelos pretos. Faz-me falta, amor.
Eternamente seu, Guilherme."
O "eternamente seu" ecoou seus ouvidos e a fez chorar as lágrimas mais alegres já derramadas.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Querido Romeu,

Então, meu bem, como estás? Bem, espero. Eu não, ando mal ultimamente, tenho sentido muito a sua falta, falta de como eras comigo antes. Tenho doído demais e quase não consigo segurar o sorriso no rosto. Hesitei por instantes e perguntaram-me o por quê de minha tristeza, respondi com um "nada". Mas meu "nada" é "tudo", és tu, meu bem. E eu fico aqui, cheia de vazios, vazia de você.
Não és um legítimo Romeu, nem eu uma bela Julieta, mas eu, assim como Julieta, sinto falta de meu Romeu, meu pequeno Romeu. Saibas que ainda sorrio quando vejo-te sorrir, ainda penso em ti todas as noites abraçada ao travesseiro e, às vezes, choro, pois sei que não estás fazendo o mesmo aí, não sentes minha falta, mas aonde estás, pequeno Romeu, além de dentro de mim? (...)
Sua pequena, sua quase Julieta, Kellen.

Trecho de uma carta que escrevi na semana passada, é meio melancólica, meio clichê, mas espero que gostem.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Entre tragadas e goles de café

Tinha uma xícara com café forte em mãos quando acendi um cigarro, na primeira tragada senti a garganta arranhar. Senti-me cansado pela noite mal-dormida. Ela. Ladra de paz. Ela roubou-me o ar, mesmo aquele mais poluído pelo tabagismo.
Cá estou eu, sentado na mesa da cozinha, tragando um cigarro e tomando café, observando através do vidro embaçado as nuvens cinzas no céu , veja só como me deixaste, amor, abandonado.Levaste tudo, meu bem, de tuas tralhas às nossas fotos, nossos cigarros, teus livros e um pedaço de mim, um grande pedaço de mim.
Entre devaneios em ti, ouço aquele CD de MPB - o nosso favorito -, e lembro-me de como gostavas daquela Faixa 12, ficavas inquieta nas onze músicas que a antecediam, sem passar uma sequer, e quando ela começava a tocar, cantavas junto com tua voz rouca e desafinada, bailavas descalça pela sala e carregavas no rosto o mais belo de teus sorrisos. Ah, amor, que saudade do teu sorriso.
Choro entre tragadas de cigarro e goles de café, guardarei-na em mim. Guardarei tua voz rouca, teus olhos castanhos, o calor de teu corpo e o sabor de tua boca, guardarei-te, minha pequena.