terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Noite de amor


Ouço tua voz meio-rouca e tu me desconcerta, enrosca-me em teu novelo, quase enforcando-me em desejos. Suas mãos enlaçam em meus cabelos compridos enquanto teus lábios quentes roçam meu pescoço frio fazendo-me delirar em prazer. Sussurra-me sacanagens ao pé-do-ouvido levando embora todo aquele meu ar de criança mimada e trazendo à tona a mulher que trago em mim.
Tu me jogas na cama e beija meu corpo nu. Acaricio-lhe o corpo e tu me faz delirar. É tudo tão obsceno. Teu corpo colado no meu, tua língua enroscada na minha. 
Tivemos uma noite de amor. De amor. Só amor. Entre essas quatro paredes fomos só eu e você. Nos encontramos, finalmente. Eu em você. Você em mim. Deitei em teu peito e ouvi as batidas do seu coração, cada uma delas bate por mim, assim como as minhas batem apenas por ti.
Fecho os olhos,
Tu preenches meu vazio
Com amor,
O teu amor.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Vícios


- Um maço de Malboro, por favor.
Era um dia quente, como os que o antecediam, passei na mercearia da esquina e comprei um maço de cigarros. É verdade, eu tinha parado de fumar, mas e daí? Resolvi voltar com meu vício.
Andei por algumas quadras, observava as crianças brincando de bola na rua, uns motoqueiros apressados, pessoas falavam ao telefone, outras acessavam a internet, alguns andavam tranquilos com seus amigos, rindo. E eu, bem, eu estava um caos. Só queria andar mais algumas quadras tragando calmamente meu cigarro, depois, quando cansasse, pegava um táxi e voltava para o meu apartamento.
Mas não o fiz.
Parei em uma pracinha de bairro, que estava vazia, sentei em um daqueles bancos sem encosto e bastante desconfortáveis, e só o que fazia era pensar em ti. Vi pássaros a voar por aquele céu tão azulzinho e me lembrei de tempos que eu os observava pela janela do quarto e sentia-me presa. E na verdade eu estava. Eu era prisioneira de mim mesma. Isolei-me naquele apartamento minúsculo depois que me deixaste, mas agora eu resolvi viver. Agora vou ser feliz. F-E-L-I-Z.
A partir de agora, serei viciada em cigarros e felicidade.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Carta a um antigo amor


Desde que você se foi, mudei minhas escolas e o compasso de meus passos. Não ouço as mesmas músicas, não assisto aos mesmos filmes e mudei meu gênero literário.
Meus horários mudaram, já não pego o mesmo ônibus, não ando pela mesma avenida, mudei os móveis de lugar e joguei fora algumas velharias.
Mudei os choros, os sorrisos, as palavras – principalmente as palavras. Já não sou tão doce com todos, descobri que doce demais enjoa – amargo demais também –, então,  agora sou meio-termo – sim, meio-termo, descobri que não é tão ruim assim.
Bem, nesse tempo descobri que caminhar é caminho, mas estagnar-se é preciso, ninguém consegue chegar a si mesmo quando está cansado demais. Então paro, observo a paisagem, sem sentir necessidade de infiltrá-la, apenas observo-a, guardando cada mínimo detalhe aqui dentro de mim, assim tudo continua a fluir.
Você tem direito de não aceitar minhas mudanças. De não querer mudar. De exercer movimento contrário. Parar. Não mudar. Negar todas as mudanças ocorridas. Faça o que quiser, cada um sabe de si. Se não sabe, deveria. Se não sabe, faz parte.
Tudo muda. Eu mudei.
Eu sofri. Eu superei.
Ainda bem.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Culpa


- Clarice, você se lembra daquele episódio com sua mãe, aos dezesseis anos?
Sim, claro que me lembrava. Saí de casa carregando algumas roupas e dinheiro que roubara de minha mãe para morar numa casa antes abandonada, que era ocupada por outros nove adolescentes. Minha mãe me apanhou naquela calçada suja numa noite de domingo, drogada. Fugi novamente e parei na FEBEM.
- Agora sua mãe partiu dessa para melhor, Clarice. Sem lhe perdoar, e você até hoje se mutila ferozmente por isso - a voz que eu não sabia a quem pertencia continuava a me atormentar - E aquilo que disseste ao teu irmão, quando ele tinha apenas quinze?
- Eu… Eu…
- Você sente muito, eu sei. Você beijou a namorada dele e esfregou-lhe na cara. Você também se mutila por isso.
Eu estava lacrimejando e tinha minha lâmina em mãos, mas eu não queria mais fazer isso. Joguei pratos, copos, garrafas, telefone, tudo que encontrara na frente, em busca de amenizar o que sentia. Ajoelhei-me e me encontrei aos prantos.
- Já seria o bastante se eu parasse agora, mas ainda há algo. Há alguém que foi sua pior vítima.
- Q…Quem? - eu perguntava aos gaguejos, meio sem voz.
- Você mesma, Clarice. Olhe pra você, tudo o que fez até hoje foi se machucar, e fez isso consigo, mais do que com qualquer um.
A voz sabia o que falava. Aos dezesseis anos eu fugi de casa, me droguei, fui presa e até hoje me mutilo. Isso tornou-me a fracassada que sou: isolada, com um emprego medíocre, morando num apartamento que cheira a mofo, sofro depressão, não tenho amigos, nem namorado.
- Perdoe-se, Clarice. Faça seu irmão lhe perdoar. Faça algo de que sua mãe se orgulharia. Descarregue essa culpa que carrega em si. Você não tem que viver assim, perdoe-se - as últimas palavras soaram meigas, foram sussurradas.
E o silêncio dominou.
Percebi que tinha pegado no sono e aquilo fora um sonho. Tomei um banho, troquei a roupa e fui atrás do meu irmão, faltara-me somente o seu perdão, só o dele. Eu já havia me perdoado.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Insônia


Hoje, novamente, o sono não veio fácil. Após rolar na cama até arrancar-lhe os lençóis, levantei-me e fui até a sala, sentei no sofá e olhei fixamente a janela.
Pensei em te ligar, mas isso seria dar o braço à torcer, desmentir-me, tirar aquela velha mentira que eu vestia nos últimos meses de ‘eu-não-gosto-mais-dele-e-ponto’. O que evidentemente era mentira, talvez a mais esfarrapada que já contei. Imaginei um romance e repreendi-me, tinha que me convencer de minha mentira.
Passava das duas da manhã quando caminhei até a cozinha e preparei um café, este que ficou forte demais. Meu coração pedia inquietamente que eu fosse honesta comigo mesma, pelo menos dessa vez, mas eu não queria dar o braço à torcer, repeti pra mim mesma várias vezes:
- Não devo me apaixonar, não devo me apaixonar, não devo…
Não me segurei e peguei na última gaveta da escrivaninha fotos nossas de tempos atrás, sorri escancarada. ‘Como éramos felizes quando nos transbordávamos um do outro’, senti uma lágrima escorrer.
Peguei a caixa com nossas fotos e coloquei no carro, dirigi apressada madrugada à dentro até sua casa. Toquei a campainha algumas vezes e você atendeu-me sonolento.
- Oi, o que você quer aqui a essa hora? - isso soaria grosso na voz de qualquer homem, não na dele.
- Er… Eu não conseguia dormir e… - fiz uma longa pausa - fiquei pensando em nós.
- Você sente saudades disso?
- Sinto, sinto muita saudade - disse já aos prantos.
- Vem, minha menina, entra aqui - ele disse puxando-me para dentro.
Colocou-me sentada no sofá e foi à cozinha, voltou com duas xícaras de chocolate-quente em mãos, entregando-me uma. Ficamos em silêncio por um bom tempo, apenas nos olhando.
- Eu também sinto saudades - ele disse entre uma golada.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Respostas


Bem, eu vivo aqui, nesse meu mundinho-ovo – sim, ovo, de pequeno, miudinho – fugindo de respostas que devia procurar, esquivo-me, enfio-me entre multidões, escondo-me em becos. Fujo. Mas... ‘E se?’, tenho perguntado-me ultimamente ‘E se eu deixasse as respostas me acharem?’. Não sei. Talvez fosse diferente. Ou não. Mas eu tenho medo.
Então me perguntes: ‘Foges de quais respostas?’ ‘Respostas de nós’, eu responderia, ‘respostas do amor’. Assim como fujo das respostas de nós, fujo de ti. Talvez eu fuja por imaturidade, medo de algo que nem sei o que é, mas entenda-me: sou criança ainda em matéria de amor, estou na escola, estudando-o, tentando entender, mas não entendo, não entendo!
Dizem que mudamos e nos aperfeiçoamos até os 25, então vamos lá, ainda tenho 11 anos à frente para mudar, talvez nesse tempo eu deixe as respostas me encontrarem – ou elas me encontrarão por acaso? -, talvez te encontre também. Tomara.
Ouça-me... O mundo é um ovo, corremos de respostas. Corremos até quando? Eu não sei, até elas nos encontrarem,  e dizem que quando encontram trazem pra gente um gosto doce, docinho e então sorrimos – pra sempre.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Recomeçar

Eu só queria um cigarro, uma bebida bem forte e alguém que me ame.
Estava só naquela noite que tantos dizem encantada ou especial, não que quisesse uma companhia, mas a sensação de solidão fazia-me mal como nunca fizera antes. Eu via aqueles casais se beijando insanamente, observava os abraços afobados unidos à votos, ouvia garrafas de espumante sendo abertas e o tilintar das taças em um brinde. No fundo eu sentia falta de alguém a quem abraçar, dizer todos os clichês propícios à época e brindar com um espumante de gosto amargo que dizem fazer parte de uma das "melhores vinícolas do mundo".
Um homem que vestia camisa branca listrada em azul olhou-me sentado naquela mesa de duas cadeiras e bebendo whisky sozinho, pude perceber a pena em seu olhar, mas não me interessava, naquele momento eu contava mentalmente junto com todos aqueles na rua e esperava ansioso pela queima de fogos, seriam 10 minutos e algumas toneladas. Assim que começaram, eu fechei os olhos, respirei bem fundo e pedi sete vezes: traz ela pra mim.
Bem, agora é só esperar que esse ano seja diferente, tentarei recomeçar e então enfrentarei os 366 dias, sozinho novamente - ou não.
 "A ideia de cortar o tempo em fatias e dar a elas o nome de Ano é genial, pois isso industrializa a esperança para que ela funcione ao limite da exaustão. Em 12 meses, qualquer um se cansa e precisa do  milagre da renovação. Um novo número revigora a vontade de acreditar que tudo vai ser diferente." Carlos Drummond de Andrade