quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Culpa


- Clarice, você se lembra daquele episódio com sua mãe, aos dezesseis anos?
Sim, claro que me lembrava. Saí de casa carregando algumas roupas e dinheiro que roubara de minha mãe para morar numa casa antes abandonada, que era ocupada por outros nove adolescentes. Minha mãe me apanhou naquela calçada suja numa noite de domingo, drogada. Fugi novamente e parei na FEBEM.
- Agora sua mãe partiu dessa para melhor, Clarice. Sem lhe perdoar, e você até hoje se mutila ferozmente por isso - a voz que eu não sabia a quem pertencia continuava a me atormentar - E aquilo que disseste ao teu irmão, quando ele tinha apenas quinze?
- Eu… Eu…
- Você sente muito, eu sei. Você beijou a namorada dele e esfregou-lhe na cara. Você também se mutila por isso.
Eu estava lacrimejando e tinha minha lâmina em mãos, mas eu não queria mais fazer isso. Joguei pratos, copos, garrafas, telefone, tudo que encontrara na frente, em busca de amenizar o que sentia. Ajoelhei-me e me encontrei aos prantos.
- Já seria o bastante se eu parasse agora, mas ainda há algo. Há alguém que foi sua pior vítima.
- Q…Quem? - eu perguntava aos gaguejos, meio sem voz.
- Você mesma, Clarice. Olhe pra você, tudo o que fez até hoje foi se machucar, e fez isso consigo, mais do que com qualquer um.
A voz sabia o que falava. Aos dezesseis anos eu fugi de casa, me droguei, fui presa e até hoje me mutilo. Isso tornou-me a fracassada que sou: isolada, com um emprego medíocre, morando num apartamento que cheira a mofo, sofro depressão, não tenho amigos, nem namorado.
- Perdoe-se, Clarice. Faça seu irmão lhe perdoar. Faça algo de que sua mãe se orgulharia. Descarregue essa culpa que carrega em si. Você não tem que viver assim, perdoe-se - as últimas palavras soaram meigas, foram sussurradas.
E o silêncio dominou.
Percebi que tinha pegado no sono e aquilo fora um sonho. Tomei um banho, troquei a roupa e fui atrás do meu irmão, faltara-me somente o seu perdão, só o dele. Eu já havia me perdoado.

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