terça-feira, 29 de maio de 2012

Eu não sei amar direito

Escrito ao som de Gostava tanto de você - Tânia Mara.
Quando ela se foi me fechei aqui nesse apartamento pequeno e chorei o choro mais doloroso de toda a minha vida. Vê-la partir por essa porta sem olhar pra trás, arrastando as malas, sem dizer-me se quer um 'adeus'. Chorei. Chorei porque sou fraco demais, chorei para afogar as dores. Chorei.
Fumei um Malboro e continuei ali, sentado no chão frio e recostado na porta da sala, fitando a janela, esperando uma ligação, um SMS, uma carta, telepatia, qualquer coisa que me dissesse algo sobre você, não importa se está no apartamento ao lado ou em Marte, eu iria atrás de você.
Suspirei e me recompus, apesar de você, a vida continua. Levantei, tomei um banho gelado, vesti o terno e fui pro trabalho, trabalhei das dez às cinco e tomei um porre no bar da esquina. Tenho direito de sofrer, sou de carne e osso, me doo às vezes, me dou esse direito: direito de me afogar num porre para chorar a dor desse amor que se foi. Não vou mentir, nunca fui bom o suficiente pra você, faltava-me tempo para acariciar-lhe os cabelos, beijar-lhe a boca, assistir filme abraçadinho. Não, eu não fui bom pra você, não como merecia. Te amo o suficiente para entender que precisas de um alguém pra fazer-te feliz como não fui capaz.
Ei, amor, só te faço um pedido: não se esqueça de mim, guarde-me aí no teu peito, um dia eu aprendo a amar direito. 

sábado, 26 de maio de 2012

Amadeirado


São três e meia da manhã de um sábado, o céu ainda está escuro e os postes de luz estão acesos, estou deitada fitando o teto do meu quarto escuro, faz nove graus lá fora e mesmo com tantas cobertas sinto vento frio que entra pela fresta da janela. Quase não dormi e as pálpebras estão pesadas demais para não deixar que se fechem.
Caio num sono profundo e tenho sonhos bonitos de nós: você está perto o suficiente para que eu possa ver o castanho escuro dos seus olhos. Sinto teu perfume amadeirado (qual é o nome?), o toque dos seus lábios quentes. Estremeço e o despertador toca: Sete horas. Hora de levantar.
Lavo o rosto, escovo os dentes, tomo um banho quente, visto um agasalho e como uns biscoitos que estavam guardados no armário, corro até a garagem e pego o carro, dirijo até a Rua Presidente Kubitschek, estaciono em frente ao seu prédio, respiro fundo, conto até dez. É isso mesmo que eu quero? Contar pra ele sobre isso que eu guardo aqui dentro? Não sei. Saio do carro e atravesso o saguão do prédio, subo até o sexto andar, paro em frente ao 125. Respiro, fecho os olhos conto até dez, relembro das palavras ensaiadas no banho: ‘Eu vim aqui dizer que sinto sua falta, quero nós dois juntos de novo’. Toco a campainha, uma voz lá dentro grita que já está vindo, segundos depois a porta se abre. Ele. Ele e seu moletom cinza antigo. Ele e seu cabelo molhado. Ele e seu sorriso aberto.
- Anne? O que você está fazendo aqui?
Eu estava nervosa, não sabia o que dizer, não lembrava o meu discurso. Droga.
- Fi-Filipe? O-oi. Tudo bem?
- Tudo e com você? Parece nervosa. Quer entrar?
- Tô bem. Ah, não, não estou nervosa, ah, nervosa? De jeito nenhum.
Sento-me no sofá e logo em seguida ele traz um café.
- Então, o que te trouxe aqui?
- Ah… Senti saudades de você.
- Eu também sinto saudades de você, Anne.
Ele me beija, posso sentir o cheiro amadeirado que exala da pele dele. Perco-me. 

terça-feira, 22 de maio de 2012

Olhe o céu, meu bem

Olhe o céu, meu bem, veja como a Lua sorri pra você, sinta o beijo que ela lhe dá a meu pedido. Eu queria estar aí contigo, debaixo do seu edredom, esquentando meus pés com os seus, com a cabeça no teu peito ouvindo seu coração pulsar. Eu queria eu e você juntos, como nós.
Tenho me sentido profundamente sozinha nesses dias monótonos e essas noites frias, sinto falta de você e não queria te dizer, mas tenho medo que me esqueças num canto qualquer, assim, jogada. Meu moço, me promete uma coisa: você não vai me esquecer, vai sempre lembrar de mim quando veres pela janela do seu quarto a Lua brilhando, vai sempre lembrar de mim quando tocar aquela música que dizíamos ser nossa, vai sorrir quando ouvir o meu nome.
Outro dia me peguei sorrindo feito boba lembrando das nossas conversa madrugada à dentro, você sofre de insônia e eu conversava contigo até pegares no sono. Você contava dos seus dias monótonos e da sua maratona na academia, eu te contava dos meus avanços nos livros e da minha tensão para a prova do dia seguinte. Você me protegia com teus braços fortes, beijava-me a boca com ternura, aconchegava minha cabeça no teu peito fazendo-me esquecer das maldades do mundo. Você sempre soube me cuidar e agora eu não vivo sem seus cuidados, meu bem. Volta.
Eu olho pro céu e vejo a Lua, lembro de ti, mando-te um beijo, recebeu? Olhe o céu, meu bem, a Lua revela-te minhas juras de amor.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Vambora

Escrito ao som de Vambora - Adriana Calcanhotto

Ei, não me deixe não, olhe só pra mim: só tenho pose de mulher decidida, porque eu sou carente demais, amor, preciso de você aqui comigo hoje e amanhã, pra sempre se puder. Vem cá, me abraça forte e diz que me ama, me conforta, me dê colo e um beijo no olho, vem, fica, me faz dormir, acaricia meus cabelos e me nina, me faz sua menina.
Ainda tenho o seu perfume gravado na memória, sinto-o a cada noite enquanto rolo na cama morrendo de insônia e falta de você. Nessas noites eu acendo a luz do abajur e abro aquele livro que a gente costumava ler uns trechos juntos, página 195 'Isto é estar em casa. Nós dois'*, repito três vezes e desabo, choro feito criança que acorda sozinha no meio de uma noite escura e é exatamente assim que me sinto: sozinha, terrivelmente sozinha: só eu jogada na cama com os cabelos desgrenhados com um livro nas mãos à penumbra, chorando.
Você lembra? Diz que sim, por favor. Você ainda lembra da nossa música, aquela que cantarolávamos em manhãs de domingo, eu vestia sua camisa e você fica de cueca, aquela que dizia assim 'ainda tem você na sala'. Não, não tem mais, o que existem são apenas lembranças, nós dois sorrindo nas fotos que eu não tirei da estante, o CD que ainda não tirei do som, os livros que estão empilhados na mesa de centro, a capa do filme que a gente costumava ver. Ainda existem vestígios de você. 
'(...) a palavra casa não é um lugar. É uma pessoa'*. Você é o meu lar, sem você eu tô assim: jogada às traças, soluçando de tanto chorar, lembrando de nós, desejando você deitado na minha cama de solteiro, nós dois, corpo colado. Volta, amor. Vem, vambora. 

*Trecho do livro Anna e o Beijo Francês, Stephanie Perkins.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Eternizaram-se


Sentiu-se trêmula, não sabia se devido ao frio ou por vê-lo ali, à sua frente, tão próximo, com as mãos em sua cintura e os lábios tão próximos aos seus. Ele era tão bonito e, visto assim tão de perto, pareceu-lhe ainda mais bonito, ainda mais encantador, tudo o que sempre quis estava à sua frente.
Acariciou-lhe a face e tocou os lábios dele com os seus, sentiu um pedaço do céu e um gostinho de menta misturado com algo álcoolico. Perderam-se um no outro como nunca haviam se perdido, sentiram os corações pulsarem mal-ritmados e ela suspirou. Sorriram-se, ele sussurrou malícias ao pé-do-ouvido e ela mordeu-lhe os lábios. Ele brincou com as mãos suaves dela. Ela brincou com os cabelos dele.
- Quero sempre poder me perder em ti.
- Quero que sempre se percas em mim.
- Quero eu e você juntos pra sempre.
- Quero nós dois eternizados.
- Quero você pra sempre minha.
- Quero você pra sempre meu.
Foram sempre um do outro, ela o via na forma de andar de um homem na rua, ele a via pela forma que uma mulher sorria. Ela nunca mais o viu. Ele nunca mais a viu. Sentiram saudades e continuam procurando-se entre ruas e vielas dessa cidade. Queriam voltar àquela noite de domingo pra reviver, pra não deixar o tempo separar. N-o-s-t-a-l-g-i-a i-n-f-i-n-d-á-v-e-l. Vontade de voltar.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Discutir Caio Fernando


Eu sorrio meio sem-jeito quando te vejo entrar pela porta e dar-se de cara comigo esparramada pelo sofá com um saco de pipocas do lado, um livro nas mãos, um moletom maior que eu e o cabelo preso num coque. Você sorri. Me fita mais um pouco e sussurra ao pé-do-ouvido:
- Nunca te vi tão linda - e sela com um beijo.
Se joga no sofá ao meu lado e pega um pouco da pipoca.
- O que você ta lendo? - ele diz enquanto mastiga.
- Caio - respondo sem olhá-lo.
- De novo? Esse cara é tão sentimental, isso não te faz bem, você já é sentimental o suficiente.
- Preferia que eu fosse fria? - agora encaro-o.
- Não quis dizer isso, minha pequena, é só que parece que ler essas coisas sentimentais demais te deixa introspectiva e - ele faz uma pausa e continua num sussurro - mais distante de mim, sinto como se te perdesse pra esse cara aí.
- Ah - sorrio - não tem com o que se preocupar, ele já morreu e era gay - ironizo a situação.
Caímos numa risada gostosa e profunda que deixamos de rir por esses dias longe. Continuamos ali por algum tempo, eu defendendo firmemente Caio e ele pedindo - quase implorando - que eu parasse com essa ideia de ler ‘sentimentalismos adolescentes’. 
Terminamos nus jogados na cama encarando um ao outro com sorrisos apaixonados, como se fosse a primeira vez de ambos. Não era, nem seria a última, nem a melhor, mas foi nossa e tudo que é só nosso, é infinitamente especial.