São três e meia da manhã de um sábado, o céu ainda está escuro e os postes de luz estão acesos, estou deitada fitando o teto do meu quarto escuro, faz nove graus lá fora e mesmo com tantas cobertas sinto vento frio que entra pela fresta da janela. Quase não dormi e as pálpebras estão pesadas demais para não deixar que se fechem.
Caio num sono profundo e tenho sonhos bonitos de nós: você está perto o suficiente para que eu possa ver o castanho escuro dos seus olhos. Sinto teu perfume amadeirado (qual é o nome?), o toque dos seus lábios quentes. Estremeço e o despertador toca: Sete horas. Hora de levantar.
Lavo o rosto, escovo os dentes, tomo um banho quente, visto um agasalho e como uns biscoitos que estavam guardados no armário, corro até a garagem e pego o carro, dirijo até a Rua Presidente Kubitschek, estaciono em frente ao seu prédio, respiro fundo, conto até dez. É isso mesmo que eu quero? Contar pra ele sobre isso que eu guardo aqui dentro? Não sei. Saio do carro e atravesso o saguão do prédio, subo até o sexto andar, paro em frente ao 125. Respiro, fecho os olhos conto até dez, relembro das palavras ensaiadas no banho: ‘Eu vim aqui dizer que sinto sua falta, quero nós dois juntos de novo’. Toco a campainha, uma voz lá dentro grita que já está vindo, segundos depois a porta se abre. Ele. Ele e seu moletom cinza antigo. Ele e seu cabelo molhado. Ele e seu sorriso aberto.
- Anne? O que você está fazendo aqui?
Eu estava nervosa, não sabia o que dizer, não lembrava o meu discurso. Droga.
- Fi-Filipe? O-oi. Tudo bem?
- Tudo e com você? Parece nervosa. Quer entrar?
- Tô bem. Ah, não, não estou nervosa, ah, nervosa? De jeito nenhum.
Sento-me no sofá e logo em seguida ele traz um café.
- Então, o que te trouxe aqui?
- Ah… Senti saudades de você.
- Eu também sinto saudades de você, Anne.
Ele me beija, posso sentir o cheiro amadeirado que exala da pele dele. Perco-me.
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