quarta-feira, 25 de julho de 2012

Droga Alucinógena


Como é que se diz isso que a gente sente aqui no peito e aperta, vezenquando dói, essa coisa, como é que chama? Ah é, amor. Amor. Coisa mais estranha de se sentir, parece coisa de doido, não é? Querer ter por perto, decorar o cheiro, querer sentir as mãos apertando as suas, querer o corpo junto, a boca colada, pra sempre. Parece estranho, e talvez realmente seja. 
Não, eu não sei porque eu tô dizendo isso tudo aqui, pra desabafar? Talvez. Acho que é mais porque esse sentimento meio louco não cabe mais somente dentro de mim. Ei, você que me lê, empresta o teu peito? Como é que dizia Renato Russo? ‘Quem inventou o amor, explica por favor…’
Amor. Isso é algum tipo de droga alucinógena? Deve ser. Parece ser. 
Estou trancado num quarto escuro, digitando essas palavras sem sentido algum. Ou será que tem sentido? Não sei. Não sei de mais nada, só sei que agora, nesse exato instante, eu queria estar abraçada com você embaixo de um cobertor falando sobre vários assuntos ou apenas em silêncio, de pés dados e corpo colado, os nossos cheiros se misturando. É isso: estou viciada em você. És a droga e eu o viciado. Virou mania, rotina, necessidade. Vem, amor, matar minha vontade. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Viciado


São onze e quarenta de uma noite nublada de um sábado qualquer, ele está sentado num canto do bar, está na terceira dose de whisky, tem o olhar vazio e o coração cheio, transbordando em lágrimas por um amor vagabundo que se foi. Uma puta barata viciada. Ele está em prantos por uma puta de esquina viciada que entregou-se numa noite em seu apartamento por uma merreca em dinheiro e um maço de cigarros. 
Agora ele tem um cigarro nas mãos, traga-o como um viciado em tabaco. É isso: ele se viciou porque aquela puta carrega em si o cheiro de cigarro, impregnado nas roupas, nas mãos, no corpo e em seus dentes amarelados. Agora ele fuma porque isso o faz lembrar daquela noite de obscenidades, ambos nus jogados na cama, ela com suas marcas de seringas por todo o corpo, ele acariciando-a e beijando cada centímetro imundo daquela mulher.
Ele bebe mais algumas doses de whisky e não consegue apreciar as mulheres sentadas que riem feito loucas na mesa ao lado, todas muito bem-vestidas, insinuando-se e bebendo, seria fácil levar qualquer uma delas para cama, não fosse ele ao menos aguentar-se de pé. Corre até o banheiro e vomita tudo aquilo que acabou de beber. É um fracassado. Deixou fracassar por uma puta. 
Volta pra casa à pé por entre essas ruas escuras e grafitadas metropolitas, sobe as escadas até o terceiro andar do prédio, abre a porta e se joga no sofá bordô com cheiro de mofo no meio da sala. Amanhã vem a ressaca.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Psiu, eu amo você

Eu sou essa menina com cara de mulher, jeito de menina, coração de mulher e que ama como uma criança de três anos que é completamente dependente da mãe, que pula na cama numa manhã e dá beijo melado na bochecha, sorri frouxo e diz ‘bom dia’. 
Será que você não percebe que eu sou assim meio complexa, menina-mulher, cheia de ideias e com vontade de te amar, de poder te apertar, sussurrar ao pé-do-ouvido que você é muito mais do que eu sempre quis e que eu não sei se te mereço porque você é bom demais pra mim. Olha só pra você: decidido, bonito, fofo e dono de um carisma impressionante. Não, eu não te mereço. Eu sou grossa demais, complicada demais, chata, cheia de mimimi’s. Mas, ei, você pode me prometer uma coisa? Fica comigo pra sempre? Não me abandona não, se você quiser eu mudo, viro do avesso por você, só por você. Promete que vai ficar aqui e me ensinar a ser a garota dos seus sonhos? Eu juro que tento corresponder.
Dá pra esquecer esse meu passado meio tumultuado? Eu nunca quis ser assim, aquilo tudo era carência, medo da solidão. Como é que diz aquela música? ‘Não importa o que a gente andou fazendo no passado, pois agora eu quero só você’. Cuida de mim? Vem que eu te cuido. 
Quero um dia poder acordar do seu lado e fazer da tua camisa meu pijama, a gente vai assistir filme a tarde inteira e no fim do dia vamos cantar umas músicas meio melosas e acabar jogados na cama, sorrindo feito bobos, nos beijando feito loucos. Vou morar pra sempre num abraço seu, sentindo o melhor cheiro do mundo misturado com o meu.
Eu só queria te dizer isso: eu amo você. Eu te amo assim torto, assim de longe, assim meu. 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Um poeta clichê


Sentado sozinho numa mesa próxima à porta, observa a chuva que cai lá fora, as pessoas correndo pelas calçadas buscando abrigo ou apenas procurando não encharcar-se mais antes de chegar ao destino. Ele vezenquando sentia um frio na nuca quando a porta se abria e alguém encharcado atravessava a porta.
Pede uma xícara de café forte. Tem uma caderneta azul aberta numa página em branco e uma caneta, rabisca algumas frases sem-sentido, umas palavras soltas e solta um suspiro. Falta inspiração, nem mesmo esse frio, a chuva ou o café cairiam bem nessa poesia de um homem sentado sozinho na mesa de uma cafeteria no centro que observa as pessoas na rua esperando que a próxima que passar por seus olhos será ela: encharcada, descabelada, com saltos finos e sobretudo, carregando uma maleta. Ele crê que será ela a próxima a passar e é sobre isso que ele escreve. Tenta arranjar palavras, verbos de ligação, orações, versos, estrofes e o título. Qual seria o título dessa poesia tão real de alguém apaixonado que sempre espera pelo seu amor?
Rabisca o nome dela na folha seguinte, desenha coisas clichês e deseja forte, deseja com toda a fé que possui em si que seja ela a mulher que abriu a porta apressada. Ele se vira, não a reconhece de primeira, certamente mudou muito desde a última vez que se viram a oito meses. Ela o vê, sorri. Ele tem vontade de se levantar e correr para os braços dela, mas não o faz, apenas sorri de volta.
- Oi - ele diz meio sem-jeito.
- Oi - ela diz enquanto se aproxima.
- Quanto tempo… Você sumiu e nem mandou notícias.
- É… Precisava colocar os pensamentos em ordem.
- Conseguiu? - ele riu enquanto lembrava-se o quão desastrada e caótica ela era e como gostava de toda essa pessoalidade dela.
- Não - ela riu e sentou-se junto a ele naquela mesa.
Prosseguiram conversando por horas, contando dos dias monótonos e chatos que tiveram e como queriam estar juntos numa tarde de domingo, numa mesa de bar, em uma sorveteria ou apenas jogando conversa fora numa praça calma.