domingo, 26 de fevereiro de 2012

Sobre essa saudadezinha chata que bate na gente


Eram três da manha e eu não havia sequer pregado os olhos, rolei na cama na tentativa frustrada de dormir, por fim, peguei meu caderninho e escrevi umas frases soltas, coisa de menina-mimada quando não tem o que quer, depois juntei e fiz um texto bonitinho dizendo como eu amo você e relatando a intensidade com que meu coração palpita quando te vê, e como o mesmo gritou a madrugada inteira o quanto doía a saudade de ti.
Assim que vi os primeiros raios de sol, tomei um banho quente e saí, quem me visse saindo a essa hora com tamanhas olheiras deduziria que eu estava mal e não tinha dormido, então eu teria que explicar com toda calma do mundo que não era bem assim e mentiria dizendo estar tudo bem, mas a essa hora não há ninguém pelas ruas, vê-se apenas a padaria aberta e o padeiro com um sorriso amarelo, feito gente que sorri por obrigação. Andei por alguns quarteirões e me vi em frente ao prédio em que você mora, cumprimentei o porteiro que estava meio sonolento e me conhecia de longa data. Peguei o elevador em direção ao quinto andar, saí e toquei a campainha no 168, você demorou, mas apareceu na porta, tinha o rosto amassado e vestia uma calça de moletom surrada, sorri meio sem-jeito e você me convidou a entrar.
- O que você tá fazendo aqui à essa hora? - dito por outro qualquer, isso soaria grosseiro, na voz dele não.
- Vim te ver.
[Silêncio]
- Quer um café?
- Uhum, mas pode deixar que eu faço, você não é bom com cafés.
Ele riu.
- Sentiu saudades, foi, Anna?
Encarei-te por instantes e vi brilho em seu olhar, respondi sem medo.
- É…
Você me abraçou por trás enquanto eu colocava a água no coador, por sorte não nos queimamos, você me beijou terno com seus lábios quentes enquanto acariciava meus cabelos.
- Eu te amo, Anna - sussurrou.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Amargura


Seus olhos eram trêmulos e indagavam inquietamente o por que de tamanha agressividade, eu acabava frustrada por mostrar-te apenas meu lado de rancor, mas você nunca soube da minha dor. Sufoco os gritos e deixo a agressividade apenas para o olhar, encara-me incrédulo de que dentro de tua pequena haja tanta amargura.
Lembro-me com enorme frequência de nossas noites de amor, tu deitavas em minha cama, sujava meus lençóis, acariciava meu corpo nu, beijava minha boca e perdíamo-nos naquela putaria do entrelaçar dos corpos, acabávamos exaustos, jogados sob a cama. Agora, bem, agora tu me encaras com esse olhar incrédulo, negando qualquer vestígio de amargura contida em mim, mas entenda, amor: é só ciúmes, medo que teu corpo se entrelace a outro que não o meu, que deites em outra cama que não a minha, que beije outros lábios. É tudo medo, ciúmes, coisa boba, me promete que vai ficar e dá aquele sorriso de mostrar toda a dentaria e eu me derreto toda, entrego-me de bandeja pra ti, só pra ti. Não tentes descobrir o que penso, auto-controle nunca foi o meu forte, então ignora meu amargo e continua mastigando minha alma. Entregue-se, te mastigarei também.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Livros, café e amor


Perambulava pelas ruas centrais durante a noite de uma cidade movimentada, o ar era denso devido a poluição, a maioria das pessoas cheirava à álcool e havia putas com suas micro-saias a cada esquina. 
Tirou um cigarro do bolso e o tragou com a ânsia comum de um tabagista, observava os grafites já desgastados em alguns muros, pichações indecifráveis, as luzes piscavam incessantemente convidando para que entremos numa dessas boates, placas de motéis por todo o lado. Passou por bares e pizzarias, todos riam feito loucos enquanto seu coração urgia de dor.
Encontrou um hotel meio chinfrim e entrou, o orçamento era baixo, o que não permitia luxos. A atendente parecia mal-humorada, pediu-lhe com certa brutalidade na voz RG, e-mail, telefone.
- Quarto 23, é o segundo à direita - disse entregando-lhe a chave.
- Obrigada. - deu alguns passos e retornou - Tem cervejas?
Pagou-a pelas cervejas e foi em direção ao quarto, era algo pequeno, mas até bastante aconchegante. Tirou a roupa e jogou-a num canto do banheiro, tomou um banho quente e vestiu-se novamente, bebeu as cervejas restantes e lamentou-se pelas noites mal-dormidas após um amor perdido. Ah, como sentia falta dela, seus afagos, seus lábios macios o acariciando, o corpo dela quente contra o dele, frio. Sua menina-mulher, aquela que brincava com os dedos e perdia-se em poesias de Pessoa. Chorou a noite inteira, alisou os lençóis, abraçou os travesseiros, naquele momento, seus maiores cúmplices, como outrora, outros lençóis e travesseiros, numa outra cama, a cama dela -, antes cúmplices de amor, agora de dor.
Pela manhã, ouve-se o toque do celular, sua mãe:
- Como está sendo a viagem? - perguntou crente de que o teria feito bem.
- Bem - respondeu com uma voz rouca e chorosa que denunciava a noite em claro.
- Você prefere voltar pra casa ou irá ficar por aí mais alguns dias?
- Voltarei em dois dias.
- Tudo bem, meu anjo, espero que realmente fique bem. Que Deus lhe abençoe.
- Amém. 
Jogou o celular sobre a cama, ajeitou a roupa, escovou os dentes e lavou o rosto, saiu do quarto em passos lentos e mal-compassados, foi à recepção e pediu que levassem-lhe café, foi a uma livraria de esquina e comprou três livros. Retornou ao quarto, a garrafa e a xícara estavam sob o criado-mudo ao lado da cama, tomou-o enquanto lia um dos livros comprados. Dias depois foi encontrado cheirando à tabaco, jogado sobre os lençóis, seu semblante era atordoante, morreu.
Uns dizem que foi engolido pelas xícaras de café, outros dizem que foram os livros, eu, bem, acredito que foi engolido pelo amor grande demais que sentia. Interpretem como quiserem.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sobre a solidão e a dor de viver só

Ei, moço, sabe o que é? Tá doendo. Aqui dentro, lá fora, tudo dói. Acordar de manhãzinha e ver a luz fraquinha que entra pelas frestas da cortina. A água que cai sobre o meu corpo durante o banho - as lágrimas que me escapam dos olhos - dói.
Ser sozinha dói. Nunca há ninguém aqui - nunca. Todos erram, eu não posso. À propósito, eu costumo perdoar várias vezes os que me magoam, mas eu cansei, simples: não perdoo mais. Como diz mamãe 'Você tem que aprender a se virar: não nasceu grudada em ninguém', é isso que tento fazer, mas dói. Sabe? Só as paredes ouvem-me, peço conselhos a mim mesma e só o que me abraça nesses dias de terror - ou solidão, como preferirem -, são os meus bichos-de-pelúcia. Tenho medo de ficar sempre assim, só vivendo pra dentro, só chorando sozinha, só abraçando meus joelhos, confessando-me ao espelho.
Tenho medo. 
Sinto dor. 
Choro muito.

Desculpem-me os lamentos intermináveis, esse não está entre os meus melhores textos, mas é o que sinto, precisava postar.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Ressaca de amor


Ele havia me despachado, assim, na cara-dura: eu-não-te-quero-mais-e-ponto. Agora eu estava só, sentada no balcão de um desses bares de esquina bebendo doses inacabáveis de whisky. O vestido tubinho preto que vestia e antes deixavam-me elegante, agora me assemelhavam a uma puta, dessas baratas, escoradas nos postes de luz esperando seu 'cliente'. A maquiagem escorria junto às lágrimas e o suor, o cabelo estava desgrenhado. Os bêbados presentes me encaravam, pelos olhares, tentavam um flerte. Em vão, claro.
Como pude namorar com esse cara por tanto tempo e, bem, após tudo isso, amá-lo. Droga!
Agora cá estou eu, perambulando pelas ruas sem rumo, o único lugar para onde não quero ir é pra casa, não quero deitar em minha cama e sentir o cheiro do desgraçado nos lençóis, não quero ver suas roupas dividindo espaço com as minhas. Tenho uma garrafa de whisky nas mãos, e bebo pelo bico, como uma bêbada viciada.
Por fim, acordo com o Sol batendo no rosto, estou deitada num banco de praça, descalça, devo ter perdido as sandálias pelo caminho, a garrafa está aos pedaços a alguns metros, meu vestido está sujo, não fui roubada e verifico se estou inteira: tudo certo, exceto pela dor de cabeça infernal, deve ser ressaca.
Caminho vagarosamente até minha casa, todos me encaram, têm razão, minha aparência não é das melhores. Ao chegar jogo-me na cama e choro, inalo seu perfume, tenho meu coração aos pedaços.
Chorarei enquanto puder,
tiver forças,
amar-te,
idiota.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Engenharia


Estou aqui, só. Não é noite, não está chovendo e nem faz frio lá fora, mas aqui dentro faz, mas é um frio que nem a blusa que vovó tricotou taparia.
Abro a janela do quarto -, ela dá de frente pro centro da cidade - olho através, vejo o telhado das casas e aqueles prédios de não-sei-quantos-andares, tudo projetado milimetricamente por um engenheiro bem preparado.
Sabe? Eu já pensei em ser engenheira, projetar prédio bonitos, ouros revolucionários e ainda os econômicos, ou tudo isso num só. Mas desisti, sonho mais bobo! Onde já se viu engenheira que não sabe cuidar da própria casa -, vida ou coração? Sonho besta!
Cuida do coração primeiro,
resolve tudinho aí dentro
e deixa os prédios pra depois.