sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Livros, café e amor


Perambulava pelas ruas centrais durante a noite de uma cidade movimentada, o ar era denso devido a poluição, a maioria das pessoas cheirava à álcool e havia putas com suas micro-saias a cada esquina. 
Tirou um cigarro do bolso e o tragou com a ânsia comum de um tabagista, observava os grafites já desgastados em alguns muros, pichações indecifráveis, as luzes piscavam incessantemente convidando para que entremos numa dessas boates, placas de motéis por todo o lado. Passou por bares e pizzarias, todos riam feito loucos enquanto seu coração urgia de dor.
Encontrou um hotel meio chinfrim e entrou, o orçamento era baixo, o que não permitia luxos. A atendente parecia mal-humorada, pediu-lhe com certa brutalidade na voz RG, e-mail, telefone.
- Quarto 23, é o segundo à direita - disse entregando-lhe a chave.
- Obrigada. - deu alguns passos e retornou - Tem cervejas?
Pagou-a pelas cervejas e foi em direção ao quarto, era algo pequeno, mas até bastante aconchegante. Tirou a roupa e jogou-a num canto do banheiro, tomou um banho quente e vestiu-se novamente, bebeu as cervejas restantes e lamentou-se pelas noites mal-dormidas após um amor perdido. Ah, como sentia falta dela, seus afagos, seus lábios macios o acariciando, o corpo dela quente contra o dele, frio. Sua menina-mulher, aquela que brincava com os dedos e perdia-se em poesias de Pessoa. Chorou a noite inteira, alisou os lençóis, abraçou os travesseiros, naquele momento, seus maiores cúmplices, como outrora, outros lençóis e travesseiros, numa outra cama, a cama dela -, antes cúmplices de amor, agora de dor.
Pela manhã, ouve-se o toque do celular, sua mãe:
- Como está sendo a viagem? - perguntou crente de que o teria feito bem.
- Bem - respondeu com uma voz rouca e chorosa que denunciava a noite em claro.
- Você prefere voltar pra casa ou irá ficar por aí mais alguns dias?
- Voltarei em dois dias.
- Tudo bem, meu anjo, espero que realmente fique bem. Que Deus lhe abençoe.
- Amém. 
Jogou o celular sobre a cama, ajeitou a roupa, escovou os dentes e lavou o rosto, saiu do quarto em passos lentos e mal-compassados, foi à recepção e pediu que levassem-lhe café, foi a uma livraria de esquina e comprou três livros. Retornou ao quarto, a garrafa e a xícara estavam sob o criado-mudo ao lado da cama, tomou-o enquanto lia um dos livros comprados. Dias depois foi encontrado cheirando à tabaco, jogado sobre os lençóis, seu semblante era atordoante, morreu.
Uns dizem que foi engolido pelas xícaras de café, outros dizem que foram os livros, eu, bem, acredito que foi engolido pelo amor grande demais que sentia. Interpretem como quiserem.

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