segunda-feira, 30 de abril de 2012

Cigarro e café

Não sei, talvez a gente tenha se entregado um ao outro como contam as poesias. Talvez o tempo passe e a gente se afaste. Talvez você encontre outra pessoa. Talvez viaje pelo mundo como sempre sonhou.
Então, depois de anos separados, a gente se encontre na cafeteria dessa esquina movimentada que gostávamos de ir aos fins de tarde e a gente vai conversar, contar das viagens feitas e dos amores vividos. Nos encontraremos como amigos, mas teremos remorso do tempo que passou e o amor que não vigorou, que ainda vive dentro de nós.
Você viveu alguns amores, o mais longo durou três anos. Ela era uma moça bonita, carismática, loira e interessante, te dava tudo o que queria e seus pais a adoravam. Vocês costumavam ouvir Guns'n'Roses e toda vez que tocava 'Sweet Child O'Mine' tu lembravas de mim e de como eu cantarolava essa música pela casa com meu inglês enrolado, tu fechava os olhos e me imagina com sua blusa listrada de azul e imaginava meu cheiro. Tu a abraçavas e lembravas do meu calor. Eu sei.
Eu não tive essa sorte, meu relacionamento mais longo durou menos de um ano e o peguei na cama com uma vadia. Ele não gostava de café, não lia meus escritos e achava ridículo Sweet Child O'Mine. Claro que não poderia dar certo. Claro que você não saiu da minha cabeça.
Mesmo após anos, você ainda é viciado em cigarros e eu, em cafés. Rimos um do outro, como desgraçamos nossas vidas nos afastando. 
- Você fez falta - eu sussurrei.
- Você também fez falta - ele sussurrou.
- Eu nunca tive ninguém que lesse meus escritos como você, com todas aqueles elogios depois e o beijo de 'parabéns, você escreve demais'. 
- Eu nunca tive alguém que me desse beijo na testa antes das apresentações e repetisse com convicção 'vai dar certo'. 
Silêncio
- Você nunca saiu da minha cabeça.
- Você nunca saiu do meu coração.
- Eu sempre pensei em você quando relia minhas escritas.
- Eu sempre pensei em você antes das apresentações.
Perderam-se num beijo, aquele que esperavam há anos. Aquele que fizera falta nas manhãs de inverno e nas noites de verão. Aquele com gosto de cigarro e café que não poderia ser mais gostoso.

sábado, 28 de abril de 2012

Um fim sem começo


O dia é frio e traz uma sobriedade da qual tenho medo. Tudo cinza. Os bares estão lotados nessa sexta-feira à noite, alguns amigos se reúnem para encher a cara ali, casais se beijam acolá e ele aqui, sentado nessa poltrona fria ao lado do telefone. Tem um livro nas mãos do qual não leu sequer uma página, ouve Engenheiros e sente uma súbita vontade de chorar, observa a chuva bater na janela, bebe um whisky que guardava a tempos para uma ocasião especial, foda-se, essa pode ser uma ocasião especial.
Do outro lado da cidade ela traga um cigarro e lê um livro, ouve a chuva cair lá fora e bater em sua janela. Está deitada no sofá ao lado do telefone, tem vontade de chorar, mas não o faz. Tem vontade de ligar, mas desiste.
Conheceram-se na festa de uma amiga em comum, conversaram e embebedaram-se a noite toda, acabaram jogados na cama estreita de solteiro dele, nus. Viram-se mais algumas vezes, treparam outras tantas. E acabou. Ou sequer começou. 
Agora ambos estão de pé, em frente à janela, acompanhando a chuva cair, arrependendo-se de ter deixado passar aquele amor tão bonito que poderia ter nascido, mas morreu antes. 
Foi o fim. Cavou a cova e enterrou. Perceberam a própria morte. Nem tudo são amores, sussurrou o coveiro, enterrando mais alguns sonhos irrealizados. 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Mais um clichê de eu e você


E com essa saudade aqui, eu faço o que? Tu desapareces e me deixa aqui, à míngua, peguntando o que fiz de errado dessa vez. Você está aí, rodeado de amigos, jogando truco durante os intervalos, beijando as gurias que lhe aparecem e enchendo a cara nessas festas de fim de semana. Sabe? Cê já foi diferente. Não digo na essência, pois essa eu sei que não mudou, ai dentro de você eu sei que ainda tem aquele cara companheiro, inteligente e engraçado pelo qual eu me apaixonei. Eu sei que tem, eu quero acreditar que ainda tem. Mas tu tem uma canalhice no olhar, tu não tinhas isso. Ou tinha e eu não percebi?
Eu sou bocó mesmo, pode dizer, você eu deixo. Sou essa bocó apaixonada que chora por um cara que simplesmente a esqueceu.
Você ta ai, a exalar toda a sua superioridade evidente, eu sei que cê sabe que é melhor que esses playboyzinhos que saem por aí pra contar quantas beijou, cê não é assim, eu sei que não.
Pode me chamar de tola, eu deixo, sou mesmo quando se trata de você. 
Eu pego aqueles livros de romances americanos tolos que conseguem nos prender a atenção e imagino nós dois em cada um deles, a gente juntinho, eu deitada no teu peito e você me acariciando os cabelos. Sim, eu nos imagino num conto de fadas daqueles bem clichês onde tudo dá certo no final. Eu sei que vai dar. Como já dizia Shakespeare 'Sendo o fim doce, que importa se o começo amargo fosse?"
Sabe de alguma coisa? Não me importo mais de você beijar essa putas que encontra por aí, li outro dia que o beijo não vem da boca, o beijo de verdade é aquele em que os corações se encontram num clichê bem bonito de mocinha-mocinho, com segundas, terceiras e quartas intenções. 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Desistir


É isso mesmo, cê entendeu tudo certinho: tô pensando em desistir, não só do amor, mas das minhas escritas, da minha playlist, do ballet, do blog, do tumblr, das minhas amizades, dos meus vícios, da vida, de mim. Não, não, eu não vou fazer nenhuma loucura, não vou me dopar de remédios até morrer, só vou continuar insignificantemente, vou continuar estudando, talvez algum dia eu me forme em publicidade como sempre sonhei, ou desista desse sonho também. 
Eu sei, eu sei, sempre fui muito persistente, eu procurava manter o sorriso no rosto mesmo quando meu mundo desabava, eu contava meus pesares a alguns amigos mais próximos e chorava à noite abafando meus soluços com o travesseiro, mas eu continuava, eu seguia em frente, mesmo que me arrastando, mesmo sem forças, eu ainda tinha fé. Tinha. Fé. 
O que restou de mim foi isso que você ta vendo: uma garota mimada de pouca idade, chorando enquanto escreve essas palavras tão duras. Talvez seja isso mesmo que eu sou: mimada. Sempre quis colo, sempre quis atenção, sempre quis mais do que eu tinha, mas esquece essa menina aí, se foca nessa aqui que esta tomando forma agora: sem fé nenhuma, só algumas inúmeras lágrimas. 
Pode dizer, eu aguento mais essa, vem aqui e diz que eu sou fraca, que eu sempre fui fraca demais, nunca aguentei porra nenhuma, diz que eu choro por tudo, diz que eu sou boba, diz, vai. Eu já sei de tudo isso.
É isso então, se não me veres por alguns dias, ou se continuares me vendo, saiba que sou isso, essa coisa caótica em busca de nada ─ ou de tudo ─, pensando em desistir. Porque eu sou essa confusão que não sabe o que fazer da vida.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A um Zé que me ouve


Zé, cê pode me ouvir? É que tenho tanta coisa pra dizer, não sei se queres escutar. Sabe o que é, Zé? Ta doendo, ó, meu coraçãozinho ta apertado, todo miudinho aqui dentro do peito por causa dele. É só aquele moço ignorar-me por uns dias pra isso acontecer, como é que pode coração de moça, como o meu guardar em si tanto amor, em? Porque dizem que isso que eu sinto é amor, pelo menos dizem, e á de ser mesmo, porque se fosse só ternura, carinho, tesão ou esse monte de sentimentos que existem por aí, seu Zé, não doía tanto. 
É danado esse tal do amor, chega de fininho, no início a gente quase nem percebe, em pouco tempo, já nos invadiu por inteiro, arrombou as portas e pulou as janelas, ocupou cada cantinho, não deixa espaço pra mais nada e só quer ele, ele, ele, ele e ele, não serve um outro alguém. E quando a gente se deixa cativar devido o amor, abre um ferida bem nesse lugar que nos mantém vivo.
Ah, Zé, me diz como que sara ferida de saudade no coração, que ta doendo e dessa dor, eu não quero saber mais não. O que eu quero agora é só sorrir.

Tudo bem


É quase de manhã e ainda não dormi, fiquei debruçada sobre a janela do quarto observando a chuva cair. Chuvas me lembram lágrimas, então chorei, chorei porque senti que o céu chorava comigo. Chorei por tudo que podíamos ter sido e não fomos, talvez por imaturidade, ou orgulho, talvez por ambos. 
O relógio despertou, mas já estava de pé a horas. Corri para a cozinha e tomei algumas xícaras de café, comi alguns biscoitos e voltei pro quarto, escorreguei pela porta, derramei-me em prantos novamente, agarrei-me aos meus joelhos e deixei os cabelos escorregarem até o rosto, os soluços eram altíssimos, acordaria o prédio, se eu ao menos morasse em um. Esmurrei as paredes culpando-as por não saberem aconselhar. Eu nunca sei o que fazer, eu nunca tenho com quem conversar e acabo confessando às paredes. De tola que sou, até aprendi a ser sozinha, ultimamente ter alguém à minha volta tem incomodado, tenho receio em chorar na frente delas, pessoas julgam, e tudo o que não preciso são julgamentos, sei da minha tolice arrogante, não é necessário que a ressaltem-na novamente. 
Esse tempo todo sozinha, amor, me fez perceber o quão orgulhosa -, ou talvez até medrosa - eu fui com nós dois, mas tudo bem se não deu certo, nós chegamos bem perto.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Sobre os meus defeitos


Eu realmente não sou o tipo de garota por quem as pessoas sentem atração, ou até mesmo se apaixonam. A maioria das pessoas que me veem tem uma visão turva de minha personalidade, julgam-me ‘metida’, ‘nariz em pé’ e tantas outras denominações, depois de tempos, essas pessoas me revelam seu primeiro pensamento sobre mim e dizem que se enganaram, eu rio, rio feito louca com tanto pré-julgamento desmedido.
Faço aulas de ballet e ouço funk. Tenho os pés feios e sustento a mania de estralá-los desde pequena, minhas mãos são grande demais, meu cabelo tem vontade própria e eu não tenho paciência pra ir em salão de beleza, ali tem tanta mulher escrota falando da vida alheia e lamentando sobre ‘ele’, ou sobre o cabelo, sobre as unhas, a falta de tempo, simplesmente não tenho paciência pra gente que só sabe reclamar.
Passo meus dias trancada dentro de casa e sou viciada em internet. Não tenho saco pra ficar pendurada no telefone e mando SMS’s o dia inteiro. Odeio as aulas de física e adoro os desenhos de geometria. Sou apaixonada pela língua portuguesa e não suporto erros de gramática básica. 
Sou neurótica, boba e chata. Mudo de humor constantemente, sou legal só com quem merece, dou uma de ‘mãezona’ pra cima das minhas amigas, falo palavrão pra caralho e sou muito sincera. 
Odeio que exponham meus defeitos, já os sei de cor e salteado.

domingo, 1 de abril de 2012

Manhã nublada de um domingo qualquer

Estou debruçada na janela do meu quarto, tenho uma xícara de café quente em minhas mãos. Visto um moletom que caberia duas de mim ─ ou até três ─ dentro, estou de meias e meu cabelo meio emaranhado está solto. São cerca de sete e meia da manhã de um domingo nublado. Não há quase ninguém andando pelas ruas, não há muitos pássaros no céu.
Sinto um calafrio com o vento que entra pela janela, tenho vontade de fechá-la e enfiar-me por debaixo das cobertas, mas não o faço. É tão irônico, ou até mesmo cômico, ver-me aqui, à essa hora da manhã, sozinha, lembrar de todos aqueles que já disseram que nunca iriam, que me fariam companhia pra sempre. Ontem à noite, o último deles foi embora, Lucas é o nome dele. Então, Lucas veio aqui ontem, planejávamos assistir a alguns filmes e dormir juntos, mas como você já deve ter percebido, isso não aconteceu. Ele chegou, beijou-me e então discutimos, não por um motivo qualquer, o filho-da-puta saiu para o banheiro e seu celular tocou, eu atendi, era uma filha-da-puta de quinta que o chamava de 'amor', ele tentou se explicar, mas de trouxa só tenho a cara ─ e talvez o coração ─, mandei-o embora. Devo ressaltar que depois de todo esse acontecimento, entupi-me de chocolates e outros doces que encontrei na geladeira, joguei-me na cama e chorei até soluçar, sem a preocupação de quando era adolescente e precisava tapar os soluços com travesseiro, chorei alto, esmurrei os travesseiros e suspeito que o vizinho ouviu meus lamentos.
Como lhe dizia antes de contar o acontecimento de ontem à noite, estou sozinha, completamente so-zi-nha nesse apartamento escuro que cheira à mofo durante essa época do ano. Debruço-me um pouco mais no parapeito e tenho o súbito desejo de voar, jogo a xícara no chão e lanço-me pelos ares, a queda dura pouco mais de oito segundos e logo sinto algo frio encostado em minha buchecha, é a última coisa que sinto.