sábado, 28 de abril de 2012

Um fim sem começo


O dia é frio e traz uma sobriedade da qual tenho medo. Tudo cinza. Os bares estão lotados nessa sexta-feira à noite, alguns amigos se reúnem para encher a cara ali, casais se beijam acolá e ele aqui, sentado nessa poltrona fria ao lado do telefone. Tem um livro nas mãos do qual não leu sequer uma página, ouve Engenheiros e sente uma súbita vontade de chorar, observa a chuva bater na janela, bebe um whisky que guardava a tempos para uma ocasião especial, foda-se, essa pode ser uma ocasião especial.
Do outro lado da cidade ela traga um cigarro e lê um livro, ouve a chuva cair lá fora e bater em sua janela. Está deitada no sofá ao lado do telefone, tem vontade de chorar, mas não o faz. Tem vontade de ligar, mas desiste.
Conheceram-se na festa de uma amiga em comum, conversaram e embebedaram-se a noite toda, acabaram jogados na cama estreita de solteiro dele, nus. Viram-se mais algumas vezes, treparam outras tantas. E acabou. Ou sequer começou. 
Agora ambos estão de pé, em frente à janela, acompanhando a chuva cair, arrependendo-se de ter deixado passar aquele amor tão bonito que poderia ter nascido, mas morreu antes. 
Foi o fim. Cavou a cova e enterrou. Perceberam a própria morte. Nem tudo são amores, sussurrou o coveiro, enterrando mais alguns sonhos irrealizados. 

Um comentário:

Póstuma disse...

Que liiindo este texto. Parabéns, você escreve muito bem