Estou debruçada na janela do meu quarto, tenho uma xícara de café quente em minhas mãos. Visto um moletom que caberia duas de mim ─ ou até três ─ dentro, estou de meias e meu cabelo meio emaranhado está solto. São cerca de sete e meia da manhã de um domingo nublado. Não há quase ninguém andando pelas ruas, não há muitos pássaros no céu.
Sinto um calafrio com o vento que entra pela janela, tenho vontade de fechá-la e enfiar-me por debaixo das cobertas, mas não o faço. É tão irônico, ou até mesmo cômico, ver-me aqui, à essa hora da manhã, sozinha, lembrar de todos aqueles que já disseram que nunca iriam, que me fariam companhia pra sempre. Ontem à noite, o último deles foi embora, Lucas é o nome dele. Então, Lucas veio aqui ontem, planejávamos assistir a alguns filmes e dormir juntos, mas como você já deve ter percebido, isso não aconteceu. Ele chegou, beijou-me e então discutimos, não por um motivo qualquer, o filho-da-puta saiu para o banheiro e seu celular tocou, eu atendi, era uma filha-da-puta de quinta que o chamava de 'amor', ele tentou se explicar, mas de trouxa só tenho a cara ─ e talvez o coração ─, mandei-o embora. Devo ressaltar que depois de todo esse acontecimento, entupi-me de chocolates e outros doces que encontrei na geladeira, joguei-me na cama e chorei até soluçar, sem a preocupação de quando era adolescente e precisava tapar os soluços com travesseiro, chorei alto, esmurrei os travesseiros e suspeito que o vizinho ouviu meus lamentos.
Como lhe dizia antes de contar o acontecimento de ontem à noite, estou sozinha, completamente so-zi-nha nesse apartamento escuro que cheira à mofo durante essa época do ano. Debruço-me um pouco mais no parapeito e tenho o súbito desejo de voar, jogo a xícara no chão e lanço-me pelos ares, a queda dura pouco mais de oito segundos e logo sinto algo frio encostado em minha buchecha, é a última coisa que sinto.
Nenhum comentário:
Postar um comentário