quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Nós


Senti um nó na garganta quando saíram os primeiros acordes daquela caixa de som fodida naquele bar chinfrim. Conhecia todas as notas tocadas, o baixo era bem tocado, a guitarra sibilava ao fundo e o vocalista sussurrava algumas palavras.
Fechei os olhos e tomei um gole de whisky, acompanhava a melodia com batidas de dedos no balcão, mas eram inaudíveis diante aqueles berros vindos de homens que discutiam entre si, forçando pra serem ouvidos, arrebentando suas cordas vocais como se ‘ganha quem gritar mais alto’, mas eu permaneci ali, imóvel, ouvindo aquela doce melodia que me lembrava ela.
Assim que a música parou, sai pela porta e vi a nevoa encobrir as ruas quase desertas, acendi um cigarro e senti uma lágrima escorrer. ‘O que lhe deixou assim?’, perguntei a mim mesmo, respondi sem querer admitir ‘Não sei, nada’. Eu sabia que não era nada, era a ausência dela que gritava alto aqui no peito.
Andei até chegar a uma praça mal iluminada, ventava forte e os galhos e folhas formavam um balé sincronizado. ‘Logo, logo você vai esquecê-la. Ela nem deve lembrar mais de ti’, repetia exaustivamente a mim mesmo no intuito de enfiar no coração essas coisas óbvias, mostrar pra ele que já cansei de sofrer por amor.
Momentos depois eu já estava com o número dela discado e apertava o ‘ligar’
“Porra, por que é que cê tá me ligando a essa hora?”, dizia ela com uma voz agressiva e meio sonolenta.
“Queria ouvir sua voz”, respondi sem saber o que falar.
“Pronto, já ouviu. Adeus”
“Ei, calma, não desliga. Eu te amo, minha pequena”, desliguei sem ouvir – ou saber – a resposta.
Um minuto depois o telefone tocava.
"Eu também te amo, meu anjo", era ela dizendo o que meu coração a tempos queria escutar.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Sufocado


De manhã você apenas escovou os dentes, tomou café e vestiu seu terno. Trabalhou exaustivamente o dia inteiro e ainda está no escritório numa sexta-feira às dez da noite.
Entra no elevador, este que desce pouco mais de dois andares e enguiça entre o décimo primeiro e o décimo segundo. “Merda!” esbraveja chutando as portas de aço. Grita o mais alto que pode, mas ninguém o ouvirá: todos já foram embora. Você se seta no chão e acaba tirando um cochilo, ao acordar ainda se vê preso e esmurra o espelho. Agora sua mão sangra, revira a pasta em busca de algo para limpar todo aquele sangue que escorre, mas acaba limpando com o paletó. Quando revirou a pasta encontrou um relatório solicitado a semanas e que planeja entregar amanhã, acha também um maço de cigarros, tira um e acende, mas logo apaga, aquilo contaminaria o ar. Você tenta abrir a janela superior do elevador , mas é em vão, és muito baixinho para alcança-las. Esbraveja mais uma vez e chuta as paredes de aço. Amanhã talvez encontrem-no – vivo ou morto – jogado no elevador.
Você não tem esposa mais e vocês nunca tiveram filhos. Sua família mora longe e seus pais morreram a muito tempo – câncer. Não tem amigos e há tempos já se formou. Ninguém sentirá sua falta.
Então você se lembra de toda a comida que está na geladeira, a zona que está seu quarto, a louça que não teve tempo de lavar, o banheiro que esqueceu de enxugar. Quanta coisa pra fazer! Lembra-se de seus medos, de todas as perdas, de tantas decepções. A mulher maravilhosa que tinha e deixara ir, os filhos que planejaram e não tiveram, todas as vezes que a traiu. Quanta coisa o faz o tolo que é! Lembra-se de como era burro e na época do colégio só pensava em brincadeiras e garotas. Pensa em quantas vezes criticou os professores , quantas vezes ficou na ‘berlinda’ por curtir demais. Você nunca foi o melhor em nada.
Agora, aos prantos, você acende um cigarro e traga calmamente.  “Você é o lixo tóxico da sociedade”. Vive por esse emprego de merda. Seu apartamento é alugado e cheira a mofo. Anda de metrô. Você não conseguiu nada na vida.
Você se esforça novamente para abrir a janela e desiste, sabe que não conseguirá com essa pouca estatura. Senta-se no chão e continua a encher o ar com todas aquelas porcarias que enfiam no cigarro. Ele já está quase no fim. Você morrerá dentro de pouco mais de dez minutos, ninguém resiste mais que isso a um local fechado com tanta fumaça comprimida. Amanhã, quando chegarem  e virem o elevador emperrado chamarão os bombeiros e o encontrarão jogado ao chão desse elevador. Estará sufocado. O zelador do prédio dirá que você sempre era o último a ir embora e contará sobre seu péssimo hábito de fumar. Haverá interrogatório “Não tem botão de emergência nesse elevador?” “Tem. Mas ele não deve ter visto.”
Você nunca foi esperto.

p.s.¹: Desculpe a ausência, mas eu realmente estava sem inspiração esse últimos dias. 
p.s.²: Quem quiser me acompanhar, estou aqui todos os dias. 

sábado, 5 de novembro de 2011

Constrastes


A madrugada era silenciosa, exceto pelo ‘toc-toc’ daquele salto agulha na calçada. O céu era inquietantemente cinza. Ela ia andando rápido. Tinha fartas olheiras que denunciavam a noite sem dormir. A maquiagem forte já escorria-lhe o rosto. Ester vestia um casaco masculino preto por cima de seu vestido de mesma cor, os sapatos eram vermelhos, de uma vermelhidão que quebrava a sobriedade daquela madrugada nebulosa.
Ela jogou o resto daquele cigarro no chão e atravessou a rua, que a esta hora,  estava deserta, abraçou-se tentando conter o frio, mas fora em vão, já que a garoinha começava a cair. Continuou a andar , ouviu um barulho de carro cada vez mais próximo, ela acelerou os passos, quase correndo. Olhou para trás. Era ele, Filipe, seu pequeno. Ele buzinou convidando-a a entrar no carro. Eufórica, ela atendeu ao pedido, deu-lhe um beijo, logo após, jogados no banco traseiro sentiam o corpo gélido dela contrastando com o cálido dele. Fizeram amor ali, no meio daquela praça, dentro do carro prata dele, ao som da chuva que caia lá fora. A noite em claro que passaram não fora suficiente, queriam-se mais, necessitavam-se mais. Ficaram ali até o primeiro raio de Sol surgir no horizonte.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Como em contos-de-fada


Nossa pequena Bea acaba de acordar, ela levanta, ajeita aqueles belos cachinhos e arruma sua roupinha de babados.  Suspira enquanto desce do carro, esse será um dia cheio. A pequenina é educada e cumprimenta todos os familiares presentes, a tia, como sempre aperta suas bochechas deixando-as vermelhas. Bea ouve aquela mesma ladainha de sempre ‘ah, como você cresceu’, o que é pura verdade, nossa menina cresceu muito, digamos que ficou até mais bonitinha. Seu primo, que acabara de chegar de viagem lhe trouxe uma bonequinha, sabe, daquelas que parece bebê de verdade? A garota agradece-lhe com um beijo que fez ‘chuac’ e sobe em disparada pelas escadas.
Beatriz entra em um quartinho e brinca, brinca, brinca, como se não existisse outro mundo, só aquele, só o dela, só aquele em que ela era mamãe e aquela bonequinha a filhinha. Ela a carrega no colo, nina e faz cafuné, assim mesmo, como se tudo fosse fácil, como se os contos-de-fada fossem reais. Ah, quem dera  fosse, quem dera.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Castanhos

Fixo-me em seus concêntricos olhos castanhos - vezenquando turvos, outras tão inocentes. Afogo-me. Perco-me em tanta inexatidão. Em teus círculos lindamente castanhos.
Tento enxerga-lhe além, mas só vejo linhas retas - atordoantes linhas retas. Linhas retas sem fim, castanhas.
Dei as costas e caminhei por ruas sombrias nessa noite sem estrelas lembrando-me dos caminhos tortuosos de seus olhos castanhos. Sentei-me no meio-fio e a chuva veio. Aqui estou: encharcada, turra, apaixonada. Ah, aqueles olhos castanhos.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Piegas


Meu pequeno,
Com certo receio começo a escrever-lhe esta carta, sei que talvez não a lerás, por que talvez ela nunca chegue até sua caixa de correio. Fito o relógio, são três da tarde, faz um dia lindo lá fora, mas sem você não tenho vontade de aproveita-lo. Ligo a TV e passa uma ridícula novela romântica antiga, no rádio toca uma música melosa. Tudo é amor por aqui.
Desde que você se foi, as cortinas perderam a cor, o chocolate ficou sem sabor, o céu ficou cinza e todas as canções tristes me descrevem. O que é que você fez comigo?
Quero que saibas que todos os móveis estão no mesmo lugar e o meu café continua amargo, porém nossos livros estão empoeirados e a carta que deixaste está amarelada – são as marcas do tempo.
Ando escrevendo muitas cartas e contos românticos, talvez porque eu precise ocupar esse oco com algo que não seja lembranças de ti. Tinhas razão, meu bem: sou piegas, sou uma fanática por amor.
Com todo o meu amor,
Sua Júlia.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Eternamente seu

Estava sentada no terceiro degrau que direcionava-se à porta principal, observava o horizonte: o Sol se pondo entre as montanhas e refletindo naquele céu tão azulzinho cores magníficas. Tinha em mãos uma carta que havia acabado de tirar da caixa de correio. Era dele. Sentiu o coração acelerar e uma lágrima escorreu. Sentia uma saudade filha-da-puta daqueles olhos pretos e o sorriso bobo. Receou em abri-la, mas acabou não se aguentando.
"21 de setembro de 2011.
   Minha doce Bea, 
Meus dias andam monótonos e chatos, sinto falta de tuas piadas toscas que faziam-me rir. Tenho trabalhado muito e recebi um aumento de 20%, o pessoal do jornal é incrível e tenho tido mais espaço para meus textos medíocres. Aluguei um apartamento velho e com cheiro de mofo, mas é o que posso pagar, ele tem uma pequena sacada, de onde vejo, acompanhado por uma xícara de café, o pôr-do-sol e lembro de como gostavas de observá-lo. Ainda gostas?
Amor, saibas que li todas as 12 cartas que mandaste, a última, em especial, releio todos os dias assim que acordo e antes de dormir, faz-me sorrir feito bobo todas as vezes, minha pequena. Nela disse-me que lês minha coluna no jornal, então, amor, gostas? Aqueles textos melosos foram escritos pensando em ti, não tiro-te da cabeça um minuto sequer.
Como andam as coisas por ai? Já acabaras de escrever aquele livro de romance que começaras?
Minha pequena Bea, sinto sua falta a todo momento, tua pele macia, teus olhos cor-de-mel, tua boca quente e teus cabelos pretos. Faz-me falta, amor.
Eternamente seu, Guilherme."
O "eternamente seu" ecoou seus ouvidos e a fez chorar as lágrimas mais alegres já derramadas.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Querido Romeu,

Então, meu bem, como estás? Bem, espero. Eu não, ando mal ultimamente, tenho sentido muito a sua falta, falta de como eras comigo antes. Tenho doído demais e quase não consigo segurar o sorriso no rosto. Hesitei por instantes e perguntaram-me o por quê de minha tristeza, respondi com um "nada". Mas meu "nada" é "tudo", és tu, meu bem. E eu fico aqui, cheia de vazios, vazia de você.
Não és um legítimo Romeu, nem eu uma bela Julieta, mas eu, assim como Julieta, sinto falta de meu Romeu, meu pequeno Romeu. Saibas que ainda sorrio quando vejo-te sorrir, ainda penso em ti todas as noites abraçada ao travesseiro e, às vezes, choro, pois sei que não estás fazendo o mesmo aí, não sentes minha falta, mas aonde estás, pequeno Romeu, além de dentro de mim? (...)
Sua pequena, sua quase Julieta, Kellen.

Trecho de uma carta que escrevi na semana passada, é meio melancólica, meio clichê, mas espero que gostem.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Entre tragadas e goles de café

Tinha uma xícara com café forte em mãos quando acendi um cigarro, na primeira tragada senti a garganta arranhar. Senti-me cansado pela noite mal-dormida. Ela. Ladra de paz. Ela roubou-me o ar, mesmo aquele mais poluído pelo tabagismo.
Cá estou eu, sentado na mesa da cozinha, tragando um cigarro e tomando café, observando através do vidro embaçado as nuvens cinzas no céu , veja só como me deixaste, amor, abandonado.Levaste tudo, meu bem, de tuas tralhas às nossas fotos, nossos cigarros, teus livros e um pedaço de mim, um grande pedaço de mim.
Entre devaneios em ti, ouço aquele CD de MPB - o nosso favorito -, e lembro-me de como gostavas daquela Faixa 12, ficavas inquieta nas onze músicas que a antecediam, sem passar uma sequer, e quando ela começava a tocar, cantavas junto com tua voz rouca e desafinada, bailavas descalça pela sala e carregavas no rosto o mais belo de teus sorrisos. Ah, amor, que saudade do teu sorriso.
Choro entre tragadas de cigarro e goles de café, guardarei-na em mim. Guardarei tua voz rouca, teus olhos castanhos, o calor de teu corpo e o sabor de tua boca, guardarei-te, minha pequena.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Ela só dorme

E ela fica olhando pro nada, e chora do nada também, num instante aquele rostinho se enxarca e seus olhinhos, antes tão bonitos, ficam vermelhos, ela bem que tenta conter aquelas lágrimas, mas é em vão, então ela repete aos sussurros para si mesma "força menina, força", e ao som de seus soluços desesperados, ela dorme, amanhã ela aprende a cessar a dor, hoje não, hoje ela só dorme.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Tempestade

Era meio estranho vê-lo assim, sorrindo feito bobo olhando as nuvens negras se formando no céu, e eu ali, do seu lado com medo de dizer o que meu coração mandava, talvez por falta de oportunidade.
- Eu gosto quando as nuvens ficam cinzas, quase formando uma tempestade.
- Eu gosto de você...
Ele não olhou pra mim e naquele momento meu mundinho pareceu ainda menor, mas pronto, eu já tinha falado. Senti as primeiras gotas da tempestade que chegaria tocando minha pele, ele se levantou e saiu correndo, no meio do caminho parou e gritou-me, era o que meu coração precisava ouvir.
- Você não vem? - foi o que ele gritou em meio àquela tempestade já formada, e eu ouvi como um 'eu te amo também'.
Então eu corri em sua direção, e  de mãos dadas corremos pelos próximos quarteirões, chutando pedras e pulando em poças.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Deixa de teimosia

Às vezes aquela menina-mulher brinca de bem-me-quer mal-me-quer. Tola. Ela ainda tem seus olhinhos castanhos, quase-verdes, inchados e vermelhos, ah, menina, vê se aprende com o que a vida tá querendo ensinar, deixa de teimosia, aprende comigo: coração é pra ser guardado a sete chaves e oito fechaduras.

Sobre a solidão

[...]
- Sabe, eu me acostumei a se sozinha.
- Mentira!
- Han?
- Você não se acostumou.
- Como sabes?
- Sei que choras todas as noites e que sente falta de alguém do teu lado.
- É. - pausa -, mas como sabes?
- Eu vivo isso como você, meus amor.
- Dói muito, né?
- É, mas dói mais fingir estar bem.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Dois Meses

O Sol retomava seu lugar no céu e ela tomava o último gole de vinho tinto. Terminara de arrumar a mesa da varanda com algumas flores num vaso improvisado e as duas taças acompanhadas pelo vinho que encontrava-se na adega a pouco mais de três anos, a Lua tomara o céu a uns vinte minutos. Ela passara a noite ali, arrumada, vestia um vestido preto de cetim e calçava um scarpin de mesma cor, a maquiagem era forte e permaneceu impecável durante toda a noite.
Ela ocupava um dos assentos daquela mesa de dois lugares, bebia em uma das duas taças de vinho, sozinha. Permanecera assim por todas aquelas intermináveis horas, entre um gole e outro, olhava fixamente a cadeira vazia à sua frente, sabia que ele não a faria companhia aquela noite, assim como nos dois meses que antecederam-na.
Após aquela dolorosa despedida, ela era como um pássaro que fora preso em gaiola, não tinha vontades e só o que sabia era esperá-lo à varanda todas as noites.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Primavera

Acordei e vi a luz que penetrava a janela, olhei para o lado procurando-o, não achei: "talvez tenha ido". Calcei as pantufas que ganhara dele no último inverno e estavam à beira da cama. Escovei os dentes e penteei meu emaranhado de cabelos. Caminhei até a cozinha e deparei com ele a observar o jardim através da janela, tinha em mãos uma xícara de café.
- Pensei que tivesse ido. - sussurrei.
- Não perderia as flores se abrindo na primavera que começara ontem - ele não se virou.
- Ah - disse cabisbaixa - pela primavera, claro.
- Pelas flores. Por você. Pelas flores que me lembram você. - ele finalmente virou-se.
- Vai embora quando ela acabar?
- Não. Vou quando o outono acabar. Verei as flores murcharem e caírem.
- Não me verás murchando.
- Não murchas, meu bem.
- Mas murcharei quando você se for.
- Então não irei.
- Não vá.
- Ficarei. Por você. Por nós. Pelas flores. Pelas próximas Primaveras.

domingo, 28 de agosto de 2011

Respiração

E, então - não de forma repentina como pensariam - um vazio inundou-lhe e sentiu-se doer, uma dor daquelas maiores que qualquer joelho ralado, era como se sua alma sangrasse e poças desse sangue fossem formadas no chão. Sabe, daqueles vazio que nada preenche, nada ameniza. Só ele.
Ela discou o número dele, e ao ouvir-lhe do outro lado da linha naquele "alô, alô, alô" desesperado a fazia bem. Algum tempo naquele silêncio, ele soltou:
- Sei que és tu, Bia.
- Como sabes?
- Reconheci tua respiração...
- Então por que não disseste algo antes?
- Ouvir tua respiração me faz bem.
[Silêncio]
- Por que paramos de nos falar? - ela perguntou-lhe.
- Eu não sei, sei apenas que sinto falta de sentir meu coração acelerar quando te vejo.
- Também sinto falta de nós dois, muita, pra falar a verdade, bem mais que deveria.
- Eu te amo.
Então ficaram ali apenas a ouvir a respiração um do outro, ela de um lado, a dor aliviada, ele do outro apenas sentindo o amor a inundar-lhe.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Faixa 15

Bati à porta e ela convidou-me a entrar. Entravam alguns raios de sol daquele fim de tarde, aos poucos esfriava, mas o coração pulsava acelerado ao lado dela.
- Não lhe vi mais - ela disse.
- É, precisei me afastar por um tempo.
- Eu não queria que fosse assim.
- O quê?
- Nós - ela pausa, respira fundo e diz cabisbaixa - se é que ainda existe nós.
- Claro que existe.
 [Silêncio]
- Faixa 15... é aquele blues, a nossa música?
- É, o ouço todos os dias, traz-me você, nem que seja só um pouquinho.
- Ele nos traz bons momentos - pausa -, os melhores momentos...
- De nós dois? - ela o interrompe.
- Também, mas eu ia dizer "da vida".

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Fitando calçadas

Os carros passavam apressados e eu os fitava da janela, fitava também aquelas calçadas movimentadas, e aqueles rostos desconhecidos, mas eu procurava por um, o dele, sabia que não encontraria, mas o coração continuava a pulsar, ele pedia, implorava para que eu não parasse de fitar aquelas calçadas esburacadas, o tolo do coração ainda tinha esperanças em encontra-lo por acaso, assim, no meio da rua, numa esquina, ou dentro de um carro.

Vodca

- Ei, moço, fuma?
- Quê? - eu não tinha ouvido.
- Fuma?
- Não, não.
- E beber, cê bebe?
- Às vezes.
- Quer? - ele me estendeu um copo de vodca.
-Uhum - respondi tomando-lhe o copo.
Dei um gole e senti a vodca descendo a garganta, umas doses depois já não me incomodava com o cheiro nojento daquele cigarro que ele fumava e inalava minhas narinas.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Sobre a falta de assunto

- Eu gosto de conversar com você...
- Eu também, mas e quando o assunto acabar?
- Eu falo do que eu gosto.
- E quando você terminar?
- Você fala do que gosta.
- E quando eu também terminar?
- Falaremos do que gostamos de fazer juntos.
- E quando isso acabar também?
- Falaremos sobre não ter nada pra falar.
- Vai ser bom?
- Vai.
- Como sabe?
- Está bom agora não está?
- Está, mas e daí?
- É exatamente isso que estamos fazendo agora. – o outro sorriu.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Era mais que saudade, era amor, e por mais que ele tentasse esquecer, um coração pulsava lá dentro por ele.Ela tentava apenas sobreviver: comer, dormir, essas coisas, ela tentava viver mecânicamente, e realmente era o que parecia, ela fingia não sentir, ela mentia a si mesma que estava bem, mas ela continuava chorando todas as noites, sozinha.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Aconchego

Aquela noite era especial, o céu estava repleto de estrelas e a Lua estava linda como a tempos não estivera, por mais bonita que estivesse, aquele silêncio era devastador e pedia que a cidade dormisse, sonhasse, mas  eu ignorava e ficava ali na janela com as luzes apagadas, apenas observando o céu, os telhados, na verdade, eu procurava um lugar que não fosse a minha cama que é quente e aconchegante como teus braços a me envolver, eu recostei a cabeça na janela e chorei embaçando o vidro, mas era exatamente o que eu precisava, sofrer longe de tudo que me lembra você.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Chuva forte

Chovia, chovia forte e eu ia andando em meio a chuva, ao encontro dele agarrada a uma garrafa de whisky barato, no bolso, o celular que a esta altura já não funcionava mais. Eu ia pulando as poças d'água e me sentia fria, pois apesar de bem agasalhada, a roupa estava encharcada.
A uma altura eu já podia pegar um táxi, mas a casa dele estava perto, então continuei andando. Passou um ônibus lotado e logo em seguida um carro que encharcou-me ainda mais e cobriu-me de lama. A chuva estava aumentando e eu tremia de frio, abri a garrafa de whisky e dei um gole.
Eu estava perto do apartamento quando lembrei que o rímel que passara deveria estar um borrão em volta dos olhos e a maquiagem devia ter escorrido. Quando chegasse lá, tomaria um banho e vestiria uma blusa dele, ele arrumaria a cama com cobertas quentes e ficaríamos ali, abraçados entre vários goles de whisky.
Cheguei ao prédio e o porteiro encarou-me com cara de desprezo, peguei o elevador e ao sair percebi que o deixara todo molhado. Esmurrei a porta e ele abriu com um sorriso no rosto "você está toda molhada", disse e logo me beijou enquanto puxava-me para dentro.

Não é tristeza

- Não é tristeza - dizia entre uma golada e outra ao garçom do bar onde estava a pouco mais de quarenta minutos - Só quero sentir a vodka queimar minha garganta. Só eu e ela. A vodka me rasgando por dentro. Não se preocupe, eu estou bem, muito bem. - ela deu mais uma golada acabando com a vodka que ainda restava na garrafa.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

- De onde ela vem?
- Ela quem?
- A dor.
- O que tá doendo?
- Aqui dentro - colocou a mão no peito -, mas de onde ela vem?
- Sei lá... mas uma vez eu caí de bicicleta.
- E daí?
- E daí que doeu.
- Então a dor vem quando a gente cai?
- Acho que é.
- Então meu tombo foi feio.
- Olha...
- O quê?
- A cicatriz, ou você achou que não ficariam marcas?
Silêncio.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Passos

Eu estava caindo e senti que ninguém me pegaria pelo braço e puxaria para cima. Vi o chão se aproximando, era algo enlameado. Permaneci jogada no chão, o coração estava ao pulos, minha respiração era ofegante, finalmente consegui me levantar, mas meus passos ecoavam em meus ouvidos mais altos que meus próprios pensamentos, a cada passo o barulho parecia aumentar mais, até se tornar insuportável e uma lágrima escorrer carregada de lembranças e dores, densa como o sangue que escorre por minh'alma.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Suicídio

O prédio refletia o azul-celeste do céu, ele tinha doze andares e eu estava no terraço, de lá pude ver algumas casas, uns prédios, carros e pessoas, tão insignificantes vistas de cima.
Passei a perna direita por cima da proteção, fechei os olhos para sentir o vento querendo puxar-me , passei a perna esquerda já com os olhos abertos, olhei para trás com medo de que me observassem e constatei que não havia ninguém, eu estava sozinha. Segurei com mais firmeza e lembrei da carta que havia escrito deixando todos os meus pertences a minha mãe e informando onde estava a caixa que guardava as cartas de desespero que havia escrito nos últimos meses.
Olhei para baixo mais uma vez e me lembrei de todos os que me magoaram, "desgraçados", soltei. Lembrei-me dele, o idiota que me fez chorar por muito tempo e que motivou-me a isso.
Dei mais uma olhada para baixo, para os carros, para as pessoas "não sentirão minha falta", falei para mim mesma, observei o vento forte e percebi pelas nuvens que agora cobriam o céu que iria chover. Esperei a chuva começar, ela já estava forte e os pingos em minha pele doíam, finalmente me joguei, como era bom voar, mesmo sem  asas. Durante o trajeto me imaginei estilhaçada no chão, sangrando, a chuva me molhando e os curiosos ao redor.  Então parei de pensar em tudo, esvaziei a mente e aproveitei, até que senti o chão frio e não pude ver mais nada.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

A chuva escorre pelo lado de fora e suas lágrimas pelo lado de dentro da janela, os trovões lá fora nem se comparavam aos barulhos vindos do seu pensamento, a atordoavam. O coração pulava no peito como se quisesse sair correndo atrás dele, ela também queria fazê-lo, mas não podia. O "não podia" soou como eco em seu pensamento e doeu no coração. O pulso esquerdo refletia o estado doentio da alma, sangrava, mas aliviava, todos a iriam julgar, mas não importa, realmente aliviara a dor, mesmo que momentaneamente.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Abismo

Ler ouvindo:  Pitty - Água contida
Eu estava descalça em meio àquela chuva fina e o vento frio. As pessoas iam para o lado oposto à chuva, enquanto eu ia em sua direção, encarando-a de frente. Todos se escondiam, e eu, molhada ali no meio do caminho, no meio do caminho em direção ao abismo. A um passo, parei e pensei em tudo o que me fizera chegar até ali, respirei fundo e me lembrei que agora não tinha mais volta, fechei os olhos e dei o passo final, me joguei naquele abismo.

Saudade

Ler ouvindo: Lifehouse - I try
Ele estava ali, sentado numa mesa de quatro lugares. Dois lugares ocupados, em um, ele e sua blusa velha da Coca-Cola, na outra, seus pés calçados com um All Star surrado. O bife com batatas fritas que sua mãe fizera já estavam frios e o prato fora empurrado como faz alguém que não vai comer. Ele apoiou os cotovelos na mesa e passou os dedos em seu cabelo preto enquanto se lembrava do quanto ela gostava de bagunçá-lo.
Apagou a luz da cozinha e foi até o banheiro, escovou os dentes, jogou uma água no rosto e encarou o espelho refletido com sua imagem. Ajeitou a cama e deitou-se, mas ele sabia que aquela seria como as outras noites de insônia que tivera ultimamente. Abriu a gaveta do criado-mudo ao seu lado e retirou de lá algumas cartas apaixonadas que ela um dia o escrevera e que ainda continham seu perfume, na frente dele, havia um mural de fotos dela que fora recusado a tirar. A saudade agora, batera forte em seu peito diante de todas aquelas lembranças.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Dor de amor

Ler ouvindo: Agnela - Podia ser
Era noite, a garota estava num quarto escuro, iluminada apenas pela luz da Lua crescente que penetrava por uma fresta da janela que ela mesma deixara. Apesar da pouca luz, pude ver que seus olhos eram um emaranhado de lágrimas, seu rosto estava vermelho de tanto chorar, os soluços eram soltos sem a preocupação de que alguém os ouvisse, e ela transmitia um desespero que deixaria qualquer um totalmente desconfortável a seu lado. Seu coração, pude perceber, estava tomado por amarguras e dor, dor de amor, suponho.

Banho.

Despi-me peça por peça, as jogava formando um monte de roupas sujas no chão. Liguei a ducha e a água avançou sobre mim , o sabonete deslisava sob minha pele e logo escorria com a água.
Sentei-me no chão e recostei a cabeça na parede, a água ainda caia com intensidade sob meu corpo, minha mente estava longe, os olhos fechados tentavam conter as lágrimas, algo inútil, já que alguns segundos depois eu já soluçava. O barulho da ducha abafava meus inquietantes soluços de dor, uma dor que vinha de dentro. Por algum tempo observei as gotas que escorriam por minhas pernas, eram tão apressadas como as pessoas em minha vida.
Levantei-me e lavei o rosto novamente, desliguei a ducha e saí do box, a água que escorria do meu corpo molhara todo o banheiro, escondi o corpo em um roupão.
Vesti-me rapidamente, fiz uma maquiagem forte para esconder a cara de choro que ainda me restara, olhei-me no espelho observando cada detalhe "perfeito", soltei. Coloquei o mesmo sorriso falso que sempre enganara a todos e saí com a certeza de que não saberiam da minha dor.

Ei!

Resolvi criar esse blog para postar os contos e diálogos que costumo criar. Sim, ele tem o mesmo nome do meu tumblr por que eu não tenho muita criatividade para nomes e títulos, então não estranhem se alguma postagem não tiver título. Esse não é o primeiro blog que crio, tenho um outro ainda ativo, a maioria dos que criei perdi a senha ou desisti de postar, espero que esse blog me faça bem.