domingo, 16 de dezembro de 2012

Desisto


Tenho andado meio vazia, sentindo falta de carinho, um cafuné na cabeça, me botar no colo e fazer dormir. Cansei de tanta coisa, me senti obrigada a me encolher num canto escuro do meu quarto e chorar, chorar até adormecer ali, com a cabeça sobre os joelhos e os braços envoltos nas pernas. Cansei de chorar por algo que não volta, algo que sinto falta, algo que sei que não terei mais. É isso mesmo, estou desistindo de tudo, de nós, de você, D-E-S-I-S-T-I-N-D-O. Chega! Não vale à pena, não vale a dor, não vale, não vale. Você não merece, na verdade nunca mereceu, uma lágrima que rolasse pela minha face, não vale uma noite de insônia, não vale a angústia. Sim, realmente desisti de você. 
Não vou dizer que foi fácil, que foi simples decidir, é difícil, é muito difícil pensar com o coração, mas é isso, eu decidi, ele pensou, cansou de apanhar. Desistir foi meu maior ato de coragem nos últimos tempos, decidi que vou gostar mais de mim, cuidar mais de mim e gostar de quem gosta de mim. Não quero mais quem inventa desculpas pra não me ver, quem foge, quem procura quando tá afim, não quero alguém sem sentimentos. Quero alguém que fique, alguém que saiba o endereço da minha casa, que queira conhecer meus pais, minha família, alguém que me leve ao cinema, que cante comigo aquela música melancólica, que ria das minhas piadas sem-graça, alguém que me faça cafuné. Quero alguém que goste de ficar. Você não se encaixa mais, não serve, não sabe decifrar esse meu quebra-cabeças, vai embora de vez, não preciso que voltes mais, vai, tenta um jogo mais fácil e entenda que esse, você já perdeu.
Observe você desaparecer da minha vida, otário. 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Violeta


Não sei o porque, mas desde bem pequena, fui apaixonada por Violetas, são pequeninas, frágeis, não impõem um significado como rosas vermelhas impõem o amor, elas apenas estão ali, dispostas, esperando que as interprete como bem entender: num momento bom, delicadeza; num momento ruim, tristeza.
Não sei se conseguirei ser fiel, estou dizendo apenas de memória, mas tem uma música que diz assim: “Violetas murcham na janela sem saber por que, dizem que enxergam o que ninguém vê”. Sinto-me Violeta que saiu por ai pra dançar e que, vez por outra, murcha ao som de uma melodia triste que reflete algo ainda mais triste. 
Tenho tido dias duros, tenho me equilibrado em meu próprio corpo, tem sido difícil ficar de pé diante de todo esse caos. Na última semana, me esqueci de sorrir, é que tenho concentrado-me em apenas ficar de pé, em não desmoronar. Em noites escuras como as anteriores, sentei-me na janela, que é como as violetas são colocadas e contemplei o céu, a Lua e as estrelas, buscando uma resposta, tentando fugir do meu próprio caos, tentando sair do meu corpo e depositar-me numa dessas Violetas que ficam aí, nas janelas da sua casa, só pra saber como é que anda esse seu coração, pra saber pra quem são os seus suspiros. 

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Eu te amo


Dizer um ‘eu te amo’ e não ouvir nenhum retorno, nem sequer um ‘eu também’ ou ‘eu gosto de você’, nem um ‘eu gosto de você só como amigo’. Não sei, talvez até o último fosse melhor que esse silêncio. O celular que não toca, a janela do Facebook que não abre, o seu nome que não aparece quando chega SMS. Nenhuma palavra, um suspiro, um retorno, nada. Esse silêncio dói, corrói, arde. Diz alguma coisa, diz, por favor, pode dizer que eu sou uma idiota e que não quer mais me ver, qualquer coisa é melhor que esse silêncio que me deixa em cima do muro, sem saber se desisto de vez ou continuo persistindo num ‘nós’. 
Eu te amo, com todas as letras, sílabas e entonações possíveis. Te amo por inteiro, amo cada pedaço teu, amo tua boca, teus olhos, teu corpo e até o seus pés meio estranhos. Amo sua voz, suas mãos quentes, seu corpo perfeito, seu cabelo, suas manias, seu jeito de me fazer rir, seus deboches, seu jeito doce de me chamar de ‘Nega’. Seus beijos ardentes, seu corpo contra o meu, seus lábios na minha nuca, suas mão pelo meu corpo fazendo-me arrepiar cada centímetro. 
Minha vontade agora é bater na porta da sua casa, levar flores, chocolates, presentes, mas então lembro que sou menina e tenho que parar de assumir o pinto que eu não tenho. Mas, hey, seria muito estranho eu te ligar? Dizer tudo isso que está entalado aqui? Jogar na sua cara que eu tenho ciúmes dessas suas amiguinhas e estou cheia de vontade de matar aquela piriguete que você pegou? Seria estranho eu dizer que estou a-p-a-i-x-o-n-a-d-a por você, assim, pausadamente, pra você entender e sentir a intensidade do meu sentimento.
Só queria dizer-te que tenho raiva de você por me fazer amar-te tanto assim e, esquecendo o orgulho que não cabe mais aqui, eu sou sua, toda sua, talvez pra sempre. Eu te amo. 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Ponto Final

O telefone toca uma, duas, três vezes, ela atende.
- Hey, amor, volta pra mim… - é uma voz trêmula que fala do outro lado da linha, mas ela reconhece.
- O que? Por que isso agora, hem? Percebeu que é ruim demais viver sem mim? 
- É, é isso mesmo, é ruim demais viver sem você, morena.
- Não me faça rir, por favor. E a sua amiguinha lá? A piranha? Vai atrás dela.
- Não, eu quero você, amor.
- Rá-rá. Não foi isso que você disse quando resolveu terminar tudo. Ela não te quis, é? Que pena, eu também não quero mais.
Ela desliga, respira fundo, sabe que não devia ser assim, é triste demais acabar desse jeito tão… duro. Mas foi ele quem quis assim, certo? Certo. Foi ele quem ligou naquela noite de quarta-feira e disse que não dava mais, que não era amor aquilo que sentia e ela, com pose de durona, também disse que nunca o amou. Ambos concordaram - pelo menos ali - que deviam seguir sua felicidade e não poderiam seguir juntos. 
Pronto, ela, orgulhosa, não disse nada, trancou-se o quarto e chorou a noite inteira abafando os soluços com o travesseiro, fora a única vez que chorou por ele, a única em que teve coragem de confessar que doía viver sem ele e que gostava demais dele. Confessou aquilo apenas a si mesma, nem à melhor amiga o fez, pelo contrário, sorriu quando contou-lhe o ocorrido e disse que estava bem, que iria atrás da felicidade e que haviam muitos outros homens por aí. E agora ele liga, numa sexta à noite, ela não se abala mais, realmente, não fora amor. 
De fato, quem vê essa morena andando por aí, julga-lhe feliz e, pode-se dizer que depois desse tempo sozinha, trancando-se no quarto à penumbra, escrevendo textos caçoando da própria situação e a mediocridade da vida em sábados à noite, ela realmente é. Hoje já tem de volta aquele típico brilho naqueles olhos cor-de-mel e um sorriso verdadeiro nos lábios, sem fingimento e choros abafados no meio da noite, apenas felicidade. 
Volta e meia ela ainda lembra dos beijos doces e das mãos quentes, mas são apenas lembranças que não voltam - e nem quer que voltem - e que um dia fizeram-na feliz. Acabou. Sem beijo de despedida, apenas um adeus e ponto final. Capítulo novo.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Tempo de Criança


Saudades daquele tempo de travessuras, de correr no meio da casa, de sorrir por tudo - até por nada. Saudades do tempo em que me ralava toda nas brincadeiras de rua e essa era minha maior dor, à propósito, saudades também dos meus amigos, companheiros de brincadeiras, de risadas, das piadas ingênuas. Saudades de correr pra cama da minha mãe no meio da noite, chorando de medo da escuridão do meu quarto. Saudades de me preocupar com um brinquedo quebrado.
Eu era pequenina, travessa, sorridente, criança mimada, a princesinha da família. Saudades de brincar pelo pátio daquele colégio antigo, correr atrás dos moleques que pegavam minhas bonecas por picardia, pra caçar brincadeira. Lembro, e rio, das vezes que a professora me punha de castigo por bater nos meninos e brincar na hora errada, eu nunca fui fácil.
E aquele tempo em que namorar era andar de mãos dadas? Ah, tempo bom. Eu tinha um namoradinho, andávamos de mãos dadas pela escola e brincávamos de papai e mamãe das bonequinhas na casinha que tinha no fundo do pátio. Saudades de quando eu contava as horas para voltar pra escola e rever meus amiguinhos. Saudades de jogar bola no meio da rua, de patinar no parque, brincar no pula-pula, correr atrás dos meninos, tomar banho de mangueira, das cantigas, apostar corrida, pular corda cantando "Loiro-moreno-careca-cabeludo-rei-ladrão-polícia-capitão-anão...". Ah, saudade desse tempo que não volta mais. 
Feliz Dia das Crianças a todos nós, que guardamos dentro do peito aquela criança que um dia fomos e voltaremos a ser em nossos sonhos.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Sou tua


Como é que se diz pra um certo alguém que 'Tá difícil, tá doendo, fazem seis noites que não durmo direito pensando em você, filho da puta'. Falta coragem pra te ligar no meio de uma tarde qualquer e dizer que gosto de você e que tenho saudades do seu beijo, das suas mãos firmes e do seu corpo quente. 
Não vou dizer que estou à míngua, apenas tenho perdido noites seguidas de sono imaginando nós dois você sabe onde, você sabe como, você sabe... Só você sabe o que podia ter acontecido se tivéssemos nos dado uma chance de tentar, você conhece esse meu lado que mais ninguém teve a oportunidade de conhecer. Com você eu pude ser quem sou, te mostrei que sou essa confusão, essa menina-mulher, meio madura, meio criança, meio louca, meio safada, mas você se assustou e foi embora. Mas, hey! Se você quiser a gente pode ir com calma, a gente pode começar tudo novamente, eu escondo esse meu lado 'diferente', pelo menos por enquanto, se é o que você quer, meu bem. Quero ser tua e quero que sejas meu. 
Eu fico sonhando acordada, imaginando nós dois juntos, jogados na cama, no sofá. Ou apenas sentados na praça tomando sorvete e fazendo gracinhas, porque isso é o que importa: o sorriso um do outro. O meu sorriso é seu — e minhas lágrimas também. 

domingo, 30 de setembro de 2012

Sábado à noite


Sábado à noite em casa, trancada no quarto, sentada no chão em frente ao espelho, fitando aquela imagem que é refletida, observando as próprias lágrimas escorrerem por aquele rosto agora tão vermelho, busca abafar os soluços com as mãos, mas é em vão, são altos demais para serem abafados assim. Li outro dia, em algum lugar algo assim “As mulheres choram em frente o espelho para se fazer companhia”, concordo. 
Quem a vê, não diz que ela seja assim, tão destruída emocionalmente. Ela é moça bonita, de boa família, com alguns amigos, inteligente, mas quem diria que ela é estragada, deformada, desestruturada emocionalmente. Quem diria que aquela garota tão bem resolvida, alegre, divertida, é assim…
Ela chora como se sua dor fosse a maior do mundo, não é. Mas ela chora, chora com sua alma machucada, chora porque não aguenta toda essa pose a qual se sujeita. Chora porque é menina mimada, chora porque quer colo de mãe. Seus motivos não são os melhores nem maiores, mas foda-se, ela chora como se fossem. 
É sábado à noite e ela está sozinha num apartamento de paredes finas e sabe que os vizinhos ouvem seu choro. É sábado à noite e ela não saiu pra beber com os amigos ou pra beijar lábios desconhecidos. É sábado à noite e ela se faz companhia enquanto chora por motivos pequenos acumulados. É sábado à noite e ela põe todo o choro engolido em dia. É sábado à noite e ela apenas chora. 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Ingenuidade


Hoje está chovendo lá fora - não eu não vou dizer que está chovendo aqui dentro, não está. Eu gosto de chuva. Eu gosto do cheiro de chuva. Eu gosto de ver os pingos escorrendo pela vidraça. Eu gosto de chuva nos fins de tardes de verão. Essas chuvas fortes e repentinas. 
Busco aquele filme que comprei há tempos e está em meio aos montes esparramados dentro do armário, era tão bonito. Lembro que chorei no final, assisti só uma vez, mas chorei no final. Eu era menina ainda, por volta dos meus 15 anos, estava envolta em braços fortes e quentes do meu primeiro namorado. Eu chorei e ele enxugou minhas lágrimas, beijou-me a boca e tivemos uma noite de sacanagens, minha primeira. É a esse filme que vou assistir. Sempre achei que romances combinassem com chuva e chocolate. 
Afundo-me no sofá com uma panela de brigadeiro e coca cola, algumas almofadas e um cobertor, há tempos não me sentia tão confortável. Na primeira cena dou risada da ingenuidade da protagonista diante um homem, bem apresentado, é verdade, mas um típico canalha, e ela se apaixona por esse canalha, tapada. Caçoo de como ela vira noites lamentando-se por não tê-lo, ela o ama. Lembro que também já fui assim. Quantas noites em claro por um idiota? Incontáveis. Quanta ingenuidade pensar que um homem não querer-te é o fim-do-mundo, um apocalipse. Hey, não é.
Não consigo chorar no fim, apenas rio, caçoo de mim mesma, de como é dada importância a uma paixão quando se é jovem demais. Ainda bem que a gente cresce, ainda bem que a vida é maior que um 'amor' que não deu certo, ainda bem que a gente encontra 'amores eternos' algumas muitas vezes, ainda bem que existem outras chances, outros bares, outras ruas, outras experiências, ainda bem que a gente cresce e ainda assim sente seu coração bater mais forte por outro alguém, ainda bem que um dia seu coração bate forte por alguém e o desse alguém também bate forte por você. Ainda bem que essa nossa ingenuidade nunca morre, só espera o momento para re-aflorar.

sábado, 15 de setembro de 2012

Não deu certo


No meio dessas madrugadas infindas de insônia, fito o teto e as cortinas meio sem-cor, o guarda-roupas escancarado e vejo minha imagem meio turva refletida no espelho. Escrevo um milhão de palavras e frases sem sentido, penso nas palavras que tentei te dizer mas que continuam engasgadas por aqui. Não, não vou dizer que sinto falta do seu afeto e dos seus beijos, não sinto. Isso mesmo: não sinto falta de você. Mas não adianta, não vou mentir, você vez por outra ainda invade meus pensamentos insanos à penumbra desse quarto frio. 
Não, a gente nunca deu certo. Se é que algum dia realmente existiu 'a gente'. Durou quanto tempo? Dois meses? Sim, dois meses e alguns dias. Mas não, não deu certo. Você se lembra de um dia sequer que a gente não tenha brigado, nem ao menos uma discussãozinha? Eu não. Você era ciumento demais, possessivo demais, hipócrita demais e, não quero mentir, eu também era. Me diz como é que podia dar certo uma história dessas? Só o amor não basta, só o fogo não basta. Apenas em filmes de comédias românticas isso é o suficiente. 
Eu era carente, você não sabia dar carinho. Você queria palavras de afeto, eu não as tinha. Eu queria estar sempre junto, você não se esforçava para que nos víssemos. Você era popular, eu era a menina tímida que não simpatizava com suas amigas. É, realmente não podia dar certo. Eu sou imperfeita demais, ou nós dois somos? Tanto faz, o que interessa é que foi melhor assim: cada um segue seu rumo. 
Mas, hey, só queria te dizer uma coisa: a sua voz acalmava esse meu coração aflito, você me arrancava sorrisos por qualquer besteira que fazia e eu gosto de você, só atende a esse pedido: não me esquece num canto qualquer, me guarda ai juntinho de você. Eu vou te guardar aqui. 

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Aquelas antigas comédias românticas


Continuo andando por essas ruas tão cinzas nessa noite tão fria, com essas pichações tão sem-sentido, admirando essas putas tão insanas, ouvindo esse silêncio tão triste, carregando na mala esses sentimentos tão complicados.
Caminho por ai sozinho em noites de sábado, em que os bares estão lotados, os bordéis estão à todo vapor, as boates, cálidas. Conversa animada, risadas incessantes, beijos ardentes, abraços amáveis, sexo ardente. Me vejo perdido nesse mundo onde as pessoas saem para se divertir com os amigos ou para encontrar a pessoa com quem vai transar, eu saio pra pensar, para tentar organizar esses sentimentos tão confusos, ouvir boa música, quem sabe beber algo.
Volto para casa, esparramo-me sobre o sofá de couro legítimo que comprei no mês passado, bebo o Red Label que está guardado a séculos no fundo do armário, assisto a uma comédia romântica dos anos 80 e vezenquando fito as estrelas que brilham do outro lado da vidraça. Choro um pouco, sinto a falta dela e de como acariciava meus cabelos e como era bom ouvir aquela voz tão doce que a cada cinco minutos fazia um comentário sobre a mocinha do filme, a doçura do mocinho, o gosto do chocolate e tantos outros.
Como num instinto, pego o telefone e disco os números do telefone de minha pequena, por um momento hesito e penso em desligar, mas era tarde demais:
- Alô?
- Oi… Como andam as coisas por ai?
- Bem e por ai?
- Um pouco monótonas.
- É…
- Ta fazendo alguma coisa?
- Não, nunca faço nada em sábados à noite, você sabe.
- Quer vir aqui? Digo, pra assistirmos a uma comédia romântica?
- Aquelas antigas que você guarda?
- É…
- Em vinte minutos chego ai.
Tutututu. 

Apenas leia-me, meu bem


Ei, por favor, me lê, prometo que serei breve e que tentarei não usar aquelas ladainhas meio poéticas, meio prolixas. Prometo, lê-me. 
Eu só queria te dizer que foi bom esse nosso tempo junto e que eu não me arrependo de nada do que vivemos, foi bom enquanto durou, foi pra sempre. Foi. Você, apesar de tudo, me fez sorrir demais e me ensinou a ser mais forte, que chorar é bom e que lutar é preciso. Você foi uma soma enorme na minha vida e apesar de não ter sido até o fim de nossos dias, como a gente prometeu naquela tarde do dia dez, valeu a pena, valeu muito a pena.
Meu pequeno, meu neguinho, sinto uma falta danada de você aqui do meu lado, me confortando, me chamando de idiota e mandando eu ir estudar. Me promete que não vai me odiar? Promete, vai. Olha nos meus olhos e promete. A gente nunca foi um casal de verdade, sempre fomos mais amigos, não deixa essa amizade morrer não.
Queria muito que você soubesse que se você precisar de um ombro pra chorar no meio dessas tardes de sol, ou nessas noites sombrias, pode me ligar, eu vou correndo te socorrer, meu bem. Eu queria terminar dizendo isso, você é especial pra mim e eu te amo como um melhor amigo o qual não se pode abandonar. 

domingo, 26 de agosto de 2012

Mais uma carta insana que não ousarei entregar-te


Bem, essa é mais uma das cartas insanas, melancólicas e sem-sentido que escrevo nesses dias amargos, de céu nublado e angústia, mais uma entre as que eu não te enviarei, mais uma para guardar dentro daquela caixinha azul que ganhei da vovó quando pequena e que fica no cantinho do armário.
Já passam das três da manhã, ainda não consegui dormir, estou sentada na cama com o abajur aceso, meia dúzia de papéis embolados no pé da cama após tentativas frustradas de escrever-te algo que expresse o quanto você faz falta aqui nessa cama, nesse quarto, no meio das minhas tralhas, ouvindo os meus CDs, lendo minhas escritas, assistindo a esses filmes melosos que passam na TV, esquentando meus pés com os seus, andando comigo de mãos dadas por essas ruas que agora, olhando assim da janela, me parecem tão cinzentas. 
Me diz, o que é que você fez pra eu me apaixonar por você desse jeito? Agora eu 'tô' perdida nessa estrada estreita e fria na qual você me abandonou e não sei mais o que fazer, pra onde eu vou? Sem você aqui do lado eu não consigo me orientar. Eu sou pequena e ingênua, você sempre soube, eu sempre deixei bem claro e você sempre me protegeu desses monstros frutos da minha criação, você sempre me protegeu no sentido metafórico e também no real. Eu era sua princesa e você meu príncipe, aonde foi parar a magia do nosso conto de fadas?
Volta, amor, e canta comigo aquela música da Mallu Magalhães, caçoa do meu desafino, me ama baixinho, me abraça forte e beija a minha boca. Deixa o teu perfume na minha roupa e aperta as minhas mãos. Faz-me rir com teu senso de humor, bagunça meu cabelo e deixa eu pegar teu boné. Vem, vamos comer brigadeiro de panela e nos lambuzar com uma felicidade que só existe quando tem você aqui do meu lado.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Menina bonita do laço-de-fita


Espichada na grama, sonhando de olhos abertos, fitando a lua, as estrelas e toda aquela imensidão. Moça bonita que ri e sonha, que planeja um futuro de risadas, sorrisos e olhares, muitos olhares, muitas trocas de olhares. Ela sabe que muitos amores ainda virão, alguns aparentemente impossíveis. Mas quem é que liga que são impossíveis? Ela não. O impossível parece mais bonito, parece aquela constelação que brilha ao sul. 
A menina sonha e ri, caçoa de si mesma por ter sonhos assim tão bobos. Sonhar sentar no banco de uma praça qualquer e tomar sorvete com os amigos, assistir a filmes de romance com ele, caminhar por campinas jogando conversa fora. São nas coisas bobas que a gente é feliz. E ser feliz é o que a gente quer, certo? Certo. 
Menina bonita do laço-de-fita de vestido florido e cabelo trançado. Dá pra imaginar que ela já pensou em desistir, desistir de si, do amor, da vida? Não, não dá. Quem a vê assim tão contente não imagina as lágrimas que já rolaram por sua face e todo o sofrimento pelo qual passou. Mas agora ela é assim: sorridente, amante da Lua, companheira de Damien Rice e sonhadora. De poucos amigos, de muitas escritas, de um amor e muitos sonhos.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Droga Alucinógena


Como é que se diz isso que a gente sente aqui no peito e aperta, vezenquando dói, essa coisa, como é que chama? Ah é, amor. Amor. Coisa mais estranha de se sentir, parece coisa de doido, não é? Querer ter por perto, decorar o cheiro, querer sentir as mãos apertando as suas, querer o corpo junto, a boca colada, pra sempre. Parece estranho, e talvez realmente seja. 
Não, eu não sei porque eu tô dizendo isso tudo aqui, pra desabafar? Talvez. Acho que é mais porque esse sentimento meio louco não cabe mais somente dentro de mim. Ei, você que me lê, empresta o teu peito? Como é que dizia Renato Russo? ‘Quem inventou o amor, explica por favor…’
Amor. Isso é algum tipo de droga alucinógena? Deve ser. Parece ser. 
Estou trancado num quarto escuro, digitando essas palavras sem sentido algum. Ou será que tem sentido? Não sei. Não sei de mais nada, só sei que agora, nesse exato instante, eu queria estar abraçada com você embaixo de um cobertor falando sobre vários assuntos ou apenas em silêncio, de pés dados e corpo colado, os nossos cheiros se misturando. É isso: estou viciada em você. És a droga e eu o viciado. Virou mania, rotina, necessidade. Vem, amor, matar minha vontade. 

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Viciado


São onze e quarenta de uma noite nublada de um sábado qualquer, ele está sentado num canto do bar, está na terceira dose de whisky, tem o olhar vazio e o coração cheio, transbordando em lágrimas por um amor vagabundo que se foi. Uma puta barata viciada. Ele está em prantos por uma puta de esquina viciada que entregou-se numa noite em seu apartamento por uma merreca em dinheiro e um maço de cigarros. 
Agora ele tem um cigarro nas mãos, traga-o como um viciado em tabaco. É isso: ele se viciou porque aquela puta carrega em si o cheiro de cigarro, impregnado nas roupas, nas mãos, no corpo e em seus dentes amarelados. Agora ele fuma porque isso o faz lembrar daquela noite de obscenidades, ambos nus jogados na cama, ela com suas marcas de seringas por todo o corpo, ele acariciando-a e beijando cada centímetro imundo daquela mulher.
Ele bebe mais algumas doses de whisky e não consegue apreciar as mulheres sentadas que riem feito loucas na mesa ao lado, todas muito bem-vestidas, insinuando-se e bebendo, seria fácil levar qualquer uma delas para cama, não fosse ele ao menos aguentar-se de pé. Corre até o banheiro e vomita tudo aquilo que acabou de beber. É um fracassado. Deixou fracassar por uma puta. 
Volta pra casa à pé por entre essas ruas escuras e grafitadas metropolitas, sobe as escadas até o terceiro andar do prédio, abre a porta e se joga no sofá bordô com cheiro de mofo no meio da sala. Amanhã vem a ressaca.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Psiu, eu amo você

Eu sou essa menina com cara de mulher, jeito de menina, coração de mulher e que ama como uma criança de três anos que é completamente dependente da mãe, que pula na cama numa manhã e dá beijo melado na bochecha, sorri frouxo e diz ‘bom dia’. 
Será que você não percebe que eu sou assim meio complexa, menina-mulher, cheia de ideias e com vontade de te amar, de poder te apertar, sussurrar ao pé-do-ouvido que você é muito mais do que eu sempre quis e que eu não sei se te mereço porque você é bom demais pra mim. Olha só pra você: decidido, bonito, fofo e dono de um carisma impressionante. Não, eu não te mereço. Eu sou grossa demais, complicada demais, chata, cheia de mimimi’s. Mas, ei, você pode me prometer uma coisa? Fica comigo pra sempre? Não me abandona não, se você quiser eu mudo, viro do avesso por você, só por você. Promete que vai ficar aqui e me ensinar a ser a garota dos seus sonhos? Eu juro que tento corresponder.
Dá pra esquecer esse meu passado meio tumultuado? Eu nunca quis ser assim, aquilo tudo era carência, medo da solidão. Como é que diz aquela música? ‘Não importa o que a gente andou fazendo no passado, pois agora eu quero só você’. Cuida de mim? Vem que eu te cuido. 
Quero um dia poder acordar do seu lado e fazer da tua camisa meu pijama, a gente vai assistir filme a tarde inteira e no fim do dia vamos cantar umas músicas meio melosas e acabar jogados na cama, sorrindo feito bobos, nos beijando feito loucos. Vou morar pra sempre num abraço seu, sentindo o melhor cheiro do mundo misturado com o meu.
Eu só queria te dizer isso: eu amo você. Eu te amo assim torto, assim de longe, assim meu. 

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Um poeta clichê


Sentado sozinho numa mesa próxima à porta, observa a chuva que cai lá fora, as pessoas correndo pelas calçadas buscando abrigo ou apenas procurando não encharcar-se mais antes de chegar ao destino. Ele vezenquando sentia um frio na nuca quando a porta se abria e alguém encharcado atravessava a porta.
Pede uma xícara de café forte. Tem uma caderneta azul aberta numa página em branco e uma caneta, rabisca algumas frases sem-sentido, umas palavras soltas e solta um suspiro. Falta inspiração, nem mesmo esse frio, a chuva ou o café cairiam bem nessa poesia de um homem sentado sozinho na mesa de uma cafeteria no centro que observa as pessoas na rua esperando que a próxima que passar por seus olhos será ela: encharcada, descabelada, com saltos finos e sobretudo, carregando uma maleta. Ele crê que será ela a próxima a passar e é sobre isso que ele escreve. Tenta arranjar palavras, verbos de ligação, orações, versos, estrofes e o título. Qual seria o título dessa poesia tão real de alguém apaixonado que sempre espera pelo seu amor?
Rabisca o nome dela na folha seguinte, desenha coisas clichês e deseja forte, deseja com toda a fé que possui em si que seja ela a mulher que abriu a porta apressada. Ele se vira, não a reconhece de primeira, certamente mudou muito desde a última vez que se viram a oito meses. Ela o vê, sorri. Ele tem vontade de se levantar e correr para os braços dela, mas não o faz, apenas sorri de volta.
- Oi - ele diz meio sem-jeito.
- Oi - ela diz enquanto se aproxima.
- Quanto tempo… Você sumiu e nem mandou notícias.
- É… Precisava colocar os pensamentos em ordem.
- Conseguiu? - ele riu enquanto lembrava-se o quão desastrada e caótica ela era e como gostava de toda essa pessoalidade dela.
- Não - ela riu e sentou-se junto a ele naquela mesa.
Prosseguiram conversando por horas, contando dos dias monótonos e chatos que tiveram e como queriam estar juntos numa tarde de domingo, numa mesa de bar, em uma sorveteria ou apenas jogando conversa fora numa praça calma. 

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Sem você


Meia garrafa de Johnnie Walker ao lado do sofá de bordô da sala. Três tocos de Malboro no cinzeiro sob a mesa de centro. Eu jogado no sofá, o cabelo desgrenhado, os pés sob a mesa de centro. 
O som reproduz o raggae de Natiruts “Vem, ó meu bem…”, sinto uma vontade de chorar e desligo o aparelho, mas é em vão, a tua voz cantando-a pelos cantos me vem à mente e novamente desabo, já perdi as contas de quantas vezes caí em prantos durante essa madrugada nebulosa e triste em que me encontro sozinho, desejando que os últimos dias não tenham realmente acontecido, que você não tenha saído por aquela porta carregando as tuas tralhas. Tudo o que eu queria agora era discar seu número e dizer tudo o que está atravessado na garganta, revelar que esse tempo que você passou aqui, foi o melhor da minha vida, contar que eu adorava ver o teu cabelo espalhado pelo travesseiro, tua cara de sono, as suas unhas no meu braço enquanto a gente assistia aquele filme de terror, dos seus beijos doces, seu sorriso torto, seu brigadeiro de panela, sua bagunça, sua confusão. Sinto falta de você.
Bebo o restante da garrafa de Johnnie Walker e trago mais dois Malboro’s, adormeço no sofá com a certeza de que amanhã de manhã não terei alguém pra me acordar, me fazer tomar banho frio e beber café forte pra curar a ressaca.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Antes de você


Sabe? Agora eu estou feliz, olhe só ao meu redor: tudo são flores, amores, suspiros aliviados. Tem você aqui comigo, você me dando beijinho, você me dando carinho, me ligando no meio de uma tarde chata pra dizer que lembrou do meu sorriso. Coisas pequenas que me fazem feliz.
Antes de você eu não tinha em quem pensar antes de dormir, não tinha um sorriso pra lembrar no meio de uma aula chata, não tinha música que me fizesse sorrir feito boba, não tinha eu apaixonada. 
Nessas manhãs de domingo-pós-farra que você dorme aqui na minha cama de solteiro, nós dois juntinhos, dormindo de conchinha, tenho vontade de ficar ali pra sempre sentindo sua respiração quente no meu pescoço, seu peito contra as minhas costas. Te encarar enquanto ainda dormes e sorrir, porque mesmo assim todo descabelado jogado na cama você é o homem mais bonito do mundo. O meu homem. O homem que eu quero ter na minha cama - nas minhas coisas, na minha vida - pra sempre.
Antes de você meus domingos eram chatos, filmes melosos não faziam sentido, eu não me colocava no lugar da mocinha dos livros românticos. Antes de você o amor era coisa de tolo, acordar ardia, sorrir doía, solidão era constante. 
Antes de você tiveram outros, uns fortes, uns magricelos, uns populares, uns nerds, uns idiotas, mas depois de você, os outros são só os outros. Quero você me invadindo, tomando-me pra ti, me fazendo rir, me amando. Quero você me fazendo viver, sorrir, sonhar, ter fé. 

terça-feira, 29 de maio de 2012

Eu não sei amar direito

Escrito ao som de Gostava tanto de você - Tânia Mara.
Quando ela se foi me fechei aqui nesse apartamento pequeno e chorei o choro mais doloroso de toda a minha vida. Vê-la partir por essa porta sem olhar pra trás, arrastando as malas, sem dizer-me se quer um 'adeus'. Chorei. Chorei porque sou fraco demais, chorei para afogar as dores. Chorei.
Fumei um Malboro e continuei ali, sentado no chão frio e recostado na porta da sala, fitando a janela, esperando uma ligação, um SMS, uma carta, telepatia, qualquer coisa que me dissesse algo sobre você, não importa se está no apartamento ao lado ou em Marte, eu iria atrás de você.
Suspirei e me recompus, apesar de você, a vida continua. Levantei, tomei um banho gelado, vesti o terno e fui pro trabalho, trabalhei das dez às cinco e tomei um porre no bar da esquina. Tenho direito de sofrer, sou de carne e osso, me doo às vezes, me dou esse direito: direito de me afogar num porre para chorar a dor desse amor que se foi. Não vou mentir, nunca fui bom o suficiente pra você, faltava-me tempo para acariciar-lhe os cabelos, beijar-lhe a boca, assistir filme abraçadinho. Não, eu não fui bom pra você, não como merecia. Te amo o suficiente para entender que precisas de um alguém pra fazer-te feliz como não fui capaz.
Ei, amor, só te faço um pedido: não se esqueça de mim, guarde-me aí no teu peito, um dia eu aprendo a amar direito. 

sábado, 26 de maio de 2012

Amadeirado


São três e meia da manhã de um sábado, o céu ainda está escuro e os postes de luz estão acesos, estou deitada fitando o teto do meu quarto escuro, faz nove graus lá fora e mesmo com tantas cobertas sinto vento frio que entra pela fresta da janela. Quase não dormi e as pálpebras estão pesadas demais para não deixar que se fechem.
Caio num sono profundo e tenho sonhos bonitos de nós: você está perto o suficiente para que eu possa ver o castanho escuro dos seus olhos. Sinto teu perfume amadeirado (qual é o nome?), o toque dos seus lábios quentes. Estremeço e o despertador toca: Sete horas. Hora de levantar.
Lavo o rosto, escovo os dentes, tomo um banho quente, visto um agasalho e como uns biscoitos que estavam guardados no armário, corro até a garagem e pego o carro, dirijo até a Rua Presidente Kubitschek, estaciono em frente ao seu prédio, respiro fundo, conto até dez. É isso mesmo que eu quero? Contar pra ele sobre isso que eu guardo aqui dentro? Não sei. Saio do carro e atravesso o saguão do prédio, subo até o sexto andar, paro em frente ao 125. Respiro, fecho os olhos conto até dez, relembro das palavras ensaiadas no banho: ‘Eu vim aqui dizer que sinto sua falta, quero nós dois juntos de novo’. Toco a campainha, uma voz lá dentro grita que já está vindo, segundos depois a porta se abre. Ele. Ele e seu moletom cinza antigo. Ele e seu cabelo molhado. Ele e seu sorriso aberto.
- Anne? O que você está fazendo aqui?
Eu estava nervosa, não sabia o que dizer, não lembrava o meu discurso. Droga.
- Fi-Filipe? O-oi. Tudo bem?
- Tudo e com você? Parece nervosa. Quer entrar?
- Tô bem. Ah, não, não estou nervosa, ah, nervosa? De jeito nenhum.
Sento-me no sofá e logo em seguida ele traz um café.
- Então, o que te trouxe aqui?
- Ah… Senti saudades de você.
- Eu também sinto saudades de você, Anne.
Ele me beija, posso sentir o cheiro amadeirado que exala da pele dele. Perco-me. 

terça-feira, 22 de maio de 2012

Olhe o céu, meu bem

Olhe o céu, meu bem, veja como a Lua sorri pra você, sinta o beijo que ela lhe dá a meu pedido. Eu queria estar aí contigo, debaixo do seu edredom, esquentando meus pés com os seus, com a cabeça no teu peito ouvindo seu coração pulsar. Eu queria eu e você juntos, como nós.
Tenho me sentido profundamente sozinha nesses dias monótonos e essas noites frias, sinto falta de você e não queria te dizer, mas tenho medo que me esqueças num canto qualquer, assim, jogada. Meu moço, me promete uma coisa: você não vai me esquecer, vai sempre lembrar de mim quando veres pela janela do seu quarto a Lua brilhando, vai sempre lembrar de mim quando tocar aquela música que dizíamos ser nossa, vai sorrir quando ouvir o meu nome.
Outro dia me peguei sorrindo feito boba lembrando das nossas conversa madrugada à dentro, você sofre de insônia e eu conversava contigo até pegares no sono. Você contava dos seus dias monótonos e da sua maratona na academia, eu te contava dos meus avanços nos livros e da minha tensão para a prova do dia seguinte. Você me protegia com teus braços fortes, beijava-me a boca com ternura, aconchegava minha cabeça no teu peito fazendo-me esquecer das maldades do mundo. Você sempre soube me cuidar e agora eu não vivo sem seus cuidados, meu bem. Volta.
Eu olho pro céu e vejo a Lua, lembro de ti, mando-te um beijo, recebeu? Olhe o céu, meu bem, a Lua revela-te minhas juras de amor.

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Vambora

Escrito ao som de Vambora - Adriana Calcanhotto

Ei, não me deixe não, olhe só pra mim: só tenho pose de mulher decidida, porque eu sou carente demais, amor, preciso de você aqui comigo hoje e amanhã, pra sempre se puder. Vem cá, me abraça forte e diz que me ama, me conforta, me dê colo e um beijo no olho, vem, fica, me faz dormir, acaricia meus cabelos e me nina, me faz sua menina.
Ainda tenho o seu perfume gravado na memória, sinto-o a cada noite enquanto rolo na cama morrendo de insônia e falta de você. Nessas noites eu acendo a luz do abajur e abro aquele livro que a gente costumava ler uns trechos juntos, página 195 'Isto é estar em casa. Nós dois'*, repito três vezes e desabo, choro feito criança que acorda sozinha no meio de uma noite escura e é exatamente assim que me sinto: sozinha, terrivelmente sozinha: só eu jogada na cama com os cabelos desgrenhados com um livro nas mãos à penumbra, chorando.
Você lembra? Diz que sim, por favor. Você ainda lembra da nossa música, aquela que cantarolávamos em manhãs de domingo, eu vestia sua camisa e você fica de cueca, aquela que dizia assim 'ainda tem você na sala'. Não, não tem mais, o que existem são apenas lembranças, nós dois sorrindo nas fotos que eu não tirei da estante, o CD que ainda não tirei do som, os livros que estão empilhados na mesa de centro, a capa do filme que a gente costumava ver. Ainda existem vestígios de você. 
'(...) a palavra casa não é um lugar. É uma pessoa'*. Você é o meu lar, sem você eu tô assim: jogada às traças, soluçando de tanto chorar, lembrando de nós, desejando você deitado na minha cama de solteiro, nós dois, corpo colado. Volta, amor. Vem, vambora. 

*Trecho do livro Anna e o Beijo Francês, Stephanie Perkins.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Eternizaram-se


Sentiu-se trêmula, não sabia se devido ao frio ou por vê-lo ali, à sua frente, tão próximo, com as mãos em sua cintura e os lábios tão próximos aos seus. Ele era tão bonito e, visto assim tão de perto, pareceu-lhe ainda mais bonito, ainda mais encantador, tudo o que sempre quis estava à sua frente.
Acariciou-lhe a face e tocou os lábios dele com os seus, sentiu um pedaço do céu e um gostinho de menta misturado com algo álcoolico. Perderam-se um no outro como nunca haviam se perdido, sentiram os corações pulsarem mal-ritmados e ela suspirou. Sorriram-se, ele sussurrou malícias ao pé-do-ouvido e ela mordeu-lhe os lábios. Ele brincou com as mãos suaves dela. Ela brincou com os cabelos dele.
- Quero sempre poder me perder em ti.
- Quero que sempre se percas em mim.
- Quero eu e você juntos pra sempre.
- Quero nós dois eternizados.
- Quero você pra sempre minha.
- Quero você pra sempre meu.
Foram sempre um do outro, ela o via na forma de andar de um homem na rua, ele a via pela forma que uma mulher sorria. Ela nunca mais o viu. Ele nunca mais a viu. Sentiram saudades e continuam procurando-se entre ruas e vielas dessa cidade. Queriam voltar àquela noite de domingo pra reviver, pra não deixar o tempo separar. N-o-s-t-a-l-g-i-a i-n-f-i-n-d-á-v-e-l. Vontade de voltar.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Discutir Caio Fernando


Eu sorrio meio sem-jeito quando te vejo entrar pela porta e dar-se de cara comigo esparramada pelo sofá com um saco de pipocas do lado, um livro nas mãos, um moletom maior que eu e o cabelo preso num coque. Você sorri. Me fita mais um pouco e sussurra ao pé-do-ouvido:
- Nunca te vi tão linda - e sela com um beijo.
Se joga no sofá ao meu lado e pega um pouco da pipoca.
- O que você ta lendo? - ele diz enquanto mastiga.
- Caio - respondo sem olhá-lo.
- De novo? Esse cara é tão sentimental, isso não te faz bem, você já é sentimental o suficiente.
- Preferia que eu fosse fria? - agora encaro-o.
- Não quis dizer isso, minha pequena, é só que parece que ler essas coisas sentimentais demais te deixa introspectiva e - ele faz uma pausa e continua num sussurro - mais distante de mim, sinto como se te perdesse pra esse cara aí.
- Ah - sorrio - não tem com o que se preocupar, ele já morreu e era gay - ironizo a situação.
Caímos numa risada gostosa e profunda que deixamos de rir por esses dias longe. Continuamos ali por algum tempo, eu defendendo firmemente Caio e ele pedindo - quase implorando - que eu parasse com essa ideia de ler ‘sentimentalismos adolescentes’. 
Terminamos nus jogados na cama encarando um ao outro com sorrisos apaixonados, como se fosse a primeira vez de ambos. Não era, nem seria a última, nem a melhor, mas foi nossa e tudo que é só nosso, é infinitamente especial.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Cigarro e café

Não sei, talvez a gente tenha se entregado um ao outro como contam as poesias. Talvez o tempo passe e a gente se afaste. Talvez você encontre outra pessoa. Talvez viaje pelo mundo como sempre sonhou.
Então, depois de anos separados, a gente se encontre na cafeteria dessa esquina movimentada que gostávamos de ir aos fins de tarde e a gente vai conversar, contar das viagens feitas e dos amores vividos. Nos encontraremos como amigos, mas teremos remorso do tempo que passou e o amor que não vigorou, que ainda vive dentro de nós.
Você viveu alguns amores, o mais longo durou três anos. Ela era uma moça bonita, carismática, loira e interessante, te dava tudo o que queria e seus pais a adoravam. Vocês costumavam ouvir Guns'n'Roses e toda vez que tocava 'Sweet Child O'Mine' tu lembravas de mim e de como eu cantarolava essa música pela casa com meu inglês enrolado, tu fechava os olhos e me imagina com sua blusa listrada de azul e imaginava meu cheiro. Tu a abraçavas e lembravas do meu calor. Eu sei.
Eu não tive essa sorte, meu relacionamento mais longo durou menos de um ano e o peguei na cama com uma vadia. Ele não gostava de café, não lia meus escritos e achava ridículo Sweet Child O'Mine. Claro que não poderia dar certo. Claro que você não saiu da minha cabeça.
Mesmo após anos, você ainda é viciado em cigarros e eu, em cafés. Rimos um do outro, como desgraçamos nossas vidas nos afastando. 
- Você fez falta - eu sussurrei.
- Você também fez falta - ele sussurrou.
- Eu nunca tive ninguém que lesse meus escritos como você, com todas aqueles elogios depois e o beijo de 'parabéns, você escreve demais'. 
- Eu nunca tive alguém que me desse beijo na testa antes das apresentações e repetisse com convicção 'vai dar certo'. 
Silêncio
- Você nunca saiu da minha cabeça.
- Você nunca saiu do meu coração.
- Eu sempre pensei em você quando relia minhas escritas.
- Eu sempre pensei em você antes das apresentações.
Perderam-se num beijo, aquele que esperavam há anos. Aquele que fizera falta nas manhãs de inverno e nas noites de verão. Aquele com gosto de cigarro e café que não poderia ser mais gostoso.

sábado, 28 de abril de 2012

Um fim sem começo


O dia é frio e traz uma sobriedade da qual tenho medo. Tudo cinza. Os bares estão lotados nessa sexta-feira à noite, alguns amigos se reúnem para encher a cara ali, casais se beijam acolá e ele aqui, sentado nessa poltrona fria ao lado do telefone. Tem um livro nas mãos do qual não leu sequer uma página, ouve Engenheiros e sente uma súbita vontade de chorar, observa a chuva bater na janela, bebe um whisky que guardava a tempos para uma ocasião especial, foda-se, essa pode ser uma ocasião especial.
Do outro lado da cidade ela traga um cigarro e lê um livro, ouve a chuva cair lá fora e bater em sua janela. Está deitada no sofá ao lado do telefone, tem vontade de chorar, mas não o faz. Tem vontade de ligar, mas desiste.
Conheceram-se na festa de uma amiga em comum, conversaram e embebedaram-se a noite toda, acabaram jogados na cama estreita de solteiro dele, nus. Viram-se mais algumas vezes, treparam outras tantas. E acabou. Ou sequer começou. 
Agora ambos estão de pé, em frente à janela, acompanhando a chuva cair, arrependendo-se de ter deixado passar aquele amor tão bonito que poderia ter nascido, mas morreu antes. 
Foi o fim. Cavou a cova e enterrou. Perceberam a própria morte. Nem tudo são amores, sussurrou o coveiro, enterrando mais alguns sonhos irrealizados. 

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Mais um clichê de eu e você


E com essa saudade aqui, eu faço o que? Tu desapareces e me deixa aqui, à míngua, peguntando o que fiz de errado dessa vez. Você está aí, rodeado de amigos, jogando truco durante os intervalos, beijando as gurias que lhe aparecem e enchendo a cara nessas festas de fim de semana. Sabe? Cê já foi diferente. Não digo na essência, pois essa eu sei que não mudou, ai dentro de você eu sei que ainda tem aquele cara companheiro, inteligente e engraçado pelo qual eu me apaixonei. Eu sei que tem, eu quero acreditar que ainda tem. Mas tu tem uma canalhice no olhar, tu não tinhas isso. Ou tinha e eu não percebi?
Eu sou bocó mesmo, pode dizer, você eu deixo. Sou essa bocó apaixonada que chora por um cara que simplesmente a esqueceu.
Você ta ai, a exalar toda a sua superioridade evidente, eu sei que cê sabe que é melhor que esses playboyzinhos que saem por aí pra contar quantas beijou, cê não é assim, eu sei que não.
Pode me chamar de tola, eu deixo, sou mesmo quando se trata de você. 
Eu pego aqueles livros de romances americanos tolos que conseguem nos prender a atenção e imagino nós dois em cada um deles, a gente juntinho, eu deitada no teu peito e você me acariciando os cabelos. Sim, eu nos imagino num conto de fadas daqueles bem clichês onde tudo dá certo no final. Eu sei que vai dar. Como já dizia Shakespeare 'Sendo o fim doce, que importa se o começo amargo fosse?"
Sabe de alguma coisa? Não me importo mais de você beijar essa putas que encontra por aí, li outro dia que o beijo não vem da boca, o beijo de verdade é aquele em que os corações se encontram num clichê bem bonito de mocinha-mocinho, com segundas, terceiras e quartas intenções. 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Desistir


É isso mesmo, cê entendeu tudo certinho: tô pensando em desistir, não só do amor, mas das minhas escritas, da minha playlist, do ballet, do blog, do tumblr, das minhas amizades, dos meus vícios, da vida, de mim. Não, não, eu não vou fazer nenhuma loucura, não vou me dopar de remédios até morrer, só vou continuar insignificantemente, vou continuar estudando, talvez algum dia eu me forme em publicidade como sempre sonhei, ou desista desse sonho também. 
Eu sei, eu sei, sempre fui muito persistente, eu procurava manter o sorriso no rosto mesmo quando meu mundo desabava, eu contava meus pesares a alguns amigos mais próximos e chorava à noite abafando meus soluços com o travesseiro, mas eu continuava, eu seguia em frente, mesmo que me arrastando, mesmo sem forças, eu ainda tinha fé. Tinha. Fé. 
O que restou de mim foi isso que você ta vendo: uma garota mimada de pouca idade, chorando enquanto escreve essas palavras tão duras. Talvez seja isso mesmo que eu sou: mimada. Sempre quis colo, sempre quis atenção, sempre quis mais do que eu tinha, mas esquece essa menina aí, se foca nessa aqui que esta tomando forma agora: sem fé nenhuma, só algumas inúmeras lágrimas. 
Pode dizer, eu aguento mais essa, vem aqui e diz que eu sou fraca, que eu sempre fui fraca demais, nunca aguentei porra nenhuma, diz que eu choro por tudo, diz que eu sou boba, diz, vai. Eu já sei de tudo isso.
É isso então, se não me veres por alguns dias, ou se continuares me vendo, saiba que sou isso, essa coisa caótica em busca de nada ─ ou de tudo ─, pensando em desistir. Porque eu sou essa confusão que não sabe o que fazer da vida.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

A um Zé que me ouve


Zé, cê pode me ouvir? É que tenho tanta coisa pra dizer, não sei se queres escutar. Sabe o que é, Zé? Ta doendo, ó, meu coraçãozinho ta apertado, todo miudinho aqui dentro do peito por causa dele. É só aquele moço ignorar-me por uns dias pra isso acontecer, como é que pode coração de moça, como o meu guardar em si tanto amor, em? Porque dizem que isso que eu sinto é amor, pelo menos dizem, e á de ser mesmo, porque se fosse só ternura, carinho, tesão ou esse monte de sentimentos que existem por aí, seu Zé, não doía tanto. 
É danado esse tal do amor, chega de fininho, no início a gente quase nem percebe, em pouco tempo, já nos invadiu por inteiro, arrombou as portas e pulou as janelas, ocupou cada cantinho, não deixa espaço pra mais nada e só quer ele, ele, ele, ele e ele, não serve um outro alguém. E quando a gente se deixa cativar devido o amor, abre um ferida bem nesse lugar que nos mantém vivo.
Ah, Zé, me diz como que sara ferida de saudade no coração, que ta doendo e dessa dor, eu não quero saber mais não. O que eu quero agora é só sorrir.

Tudo bem


É quase de manhã e ainda não dormi, fiquei debruçada sobre a janela do quarto observando a chuva cair. Chuvas me lembram lágrimas, então chorei, chorei porque senti que o céu chorava comigo. Chorei por tudo que podíamos ter sido e não fomos, talvez por imaturidade, ou orgulho, talvez por ambos. 
O relógio despertou, mas já estava de pé a horas. Corri para a cozinha e tomei algumas xícaras de café, comi alguns biscoitos e voltei pro quarto, escorreguei pela porta, derramei-me em prantos novamente, agarrei-me aos meus joelhos e deixei os cabelos escorregarem até o rosto, os soluços eram altíssimos, acordaria o prédio, se eu ao menos morasse em um. Esmurrei as paredes culpando-as por não saberem aconselhar. Eu nunca sei o que fazer, eu nunca tenho com quem conversar e acabo confessando às paredes. De tola que sou, até aprendi a ser sozinha, ultimamente ter alguém à minha volta tem incomodado, tenho receio em chorar na frente delas, pessoas julgam, e tudo o que não preciso são julgamentos, sei da minha tolice arrogante, não é necessário que a ressaltem-na novamente. 
Esse tempo todo sozinha, amor, me fez perceber o quão orgulhosa -, ou talvez até medrosa - eu fui com nós dois, mas tudo bem se não deu certo, nós chegamos bem perto.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Sobre os meus defeitos


Eu realmente não sou o tipo de garota por quem as pessoas sentem atração, ou até mesmo se apaixonam. A maioria das pessoas que me veem tem uma visão turva de minha personalidade, julgam-me ‘metida’, ‘nariz em pé’ e tantas outras denominações, depois de tempos, essas pessoas me revelam seu primeiro pensamento sobre mim e dizem que se enganaram, eu rio, rio feito louca com tanto pré-julgamento desmedido.
Faço aulas de ballet e ouço funk. Tenho os pés feios e sustento a mania de estralá-los desde pequena, minhas mãos são grande demais, meu cabelo tem vontade própria e eu não tenho paciência pra ir em salão de beleza, ali tem tanta mulher escrota falando da vida alheia e lamentando sobre ‘ele’, ou sobre o cabelo, sobre as unhas, a falta de tempo, simplesmente não tenho paciência pra gente que só sabe reclamar.
Passo meus dias trancada dentro de casa e sou viciada em internet. Não tenho saco pra ficar pendurada no telefone e mando SMS’s o dia inteiro. Odeio as aulas de física e adoro os desenhos de geometria. Sou apaixonada pela língua portuguesa e não suporto erros de gramática básica. 
Sou neurótica, boba e chata. Mudo de humor constantemente, sou legal só com quem merece, dou uma de ‘mãezona’ pra cima das minhas amigas, falo palavrão pra caralho e sou muito sincera. 
Odeio que exponham meus defeitos, já os sei de cor e salteado.

domingo, 1 de abril de 2012

Manhã nublada de um domingo qualquer

Estou debruçada na janela do meu quarto, tenho uma xícara de café quente em minhas mãos. Visto um moletom que caberia duas de mim ─ ou até três ─ dentro, estou de meias e meu cabelo meio emaranhado está solto. São cerca de sete e meia da manhã de um domingo nublado. Não há quase ninguém andando pelas ruas, não há muitos pássaros no céu.
Sinto um calafrio com o vento que entra pela janela, tenho vontade de fechá-la e enfiar-me por debaixo das cobertas, mas não o faço. É tão irônico, ou até mesmo cômico, ver-me aqui, à essa hora da manhã, sozinha, lembrar de todos aqueles que já disseram que nunca iriam, que me fariam companhia pra sempre. Ontem à noite, o último deles foi embora, Lucas é o nome dele. Então, Lucas veio aqui ontem, planejávamos assistir a alguns filmes e dormir juntos, mas como você já deve ter percebido, isso não aconteceu. Ele chegou, beijou-me e então discutimos, não por um motivo qualquer, o filho-da-puta saiu para o banheiro e seu celular tocou, eu atendi, era uma filha-da-puta de quinta que o chamava de 'amor', ele tentou se explicar, mas de trouxa só tenho a cara ─ e talvez o coração ─, mandei-o embora. Devo ressaltar que depois de todo esse acontecimento, entupi-me de chocolates e outros doces que encontrei na geladeira, joguei-me na cama e chorei até soluçar, sem a preocupação de quando era adolescente e precisava tapar os soluços com travesseiro, chorei alto, esmurrei os travesseiros e suspeito que o vizinho ouviu meus lamentos.
Como lhe dizia antes de contar o acontecimento de ontem à noite, estou sozinha, completamente so-zi-nha nesse apartamento escuro que cheira à mofo durante essa época do ano. Debruço-me um pouco mais no parapeito e tenho o súbito desejo de voar, jogo a xícara no chão e lanço-me pelos ares, a queda dura pouco mais de oito segundos e logo sinto algo frio encostado em minha buchecha, é a última coisa que sinto.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Re-amar


E já é de manhã, abre os olhinhos devagar, quer dormir um pouco mais, mas não dá. A luz que entra pela janela anuncia o dia lindo que brilha lá fora. Encara o teto devagar, arrasta o cobertor e pensa nele, porque é isso que as pessoas apaixonadas fazem ao acordar, pensar ‘nele’ e desejar que esteja bem e que, por hoje, aconteçam coisas boas.
Levanta, toma banho, escova os dentes, veste roupa, toma café, lê jornal. Nada de novo, o mundo está em guerra, a economia está crescendo, mais gente foi morta por bandidos, mais bancos foram roubados, já virou rotina. Sai às pressas, pega um táxi, vai em direção ao trabalho, há muito o que fazer, observa as pessoas tão apressadas quanto ela, algumas andando rápido, quase correndo, é tudo um caos. 
Algumas quadras e está na porta do trabalho, cumprimenta o porteiro, um ‘oizinho’ pra secretária, liga o computador e dá início a mais uma jornada estressante e cansativa de trabalho. Ao fim do expediente, quase sete da noite, ouve o celular vibrar e atende sem interesse no número desconhecido que acende no visor.
─ Alô?
─ Anna?
─ Oi. Quem ta falando?
─ Não reconheceu a voz?
─ Não - respondeu já impaciente.
─ Sou eu, Gustavo, Anna.
─ Ah. E por que resolveu me ligar? Lembrou da minha existência?
─ Eu nunca esqueci.
─ E por que nunca mais deu notícias?
─ Eu estava tentando te esquecer, Anna.
─ E…
─ E que não consegui, é por isso que eu tô te ligando e é por isso que eu quero que você saia na porta do seu trabalho, estou te esperando.

domingo, 25 de março de 2012

Cotidiano


O jornal chega todo dia de manhãzinha. Entre as manchetes, mais números da guerra, os maus resultados da educação, a corrupção, pesquisa científica, algo sobre um famoso que está no auge. Nenhuma novidade. Já estamos acostumados à guerra como números, mortes como números, a educação ruim não é problema, a corrupção virou rotina, pesquisas científicas são as melhores notícias do jornal. Lá na redação, ninguém escreve sobre essas coisas que acontecem no dia-a-dia, essas coisinhas pequenas bonitas, como o beijo que trocaram no cinema, a declaração de amor no estacionamento do shopping, o abraço entre amigos, ninguém fala disso no jornal e, sabe, é disso que o mundo ta precisando: otimismo, sem dar as costas ao problema, mas resolvendo-o com a certeza de que amanhã, o Sol vai brilhar outra vez, senão, a chuva irá cair, e teremos um novo dia, uma nova chance de sentir, de viver e sobrepor o que já aconteceu, cobrar dos políticos filhos-da-puta o dinheiro que roubaram da gente. Acontecer. 
O que consome é essa monotonia, acordar e saber o que lhe espera lá fora. Falta atitude. 
Sabe? O mundo pode ser divertido, mesmo com esse jeitinho meio torto, essa rotina meio chata, os problemas meio grandes e essa falta de novidade. Acorda, levanta, sorri e se apaixona pelo mundo, porque ele te espera do lado de lá daquela porta.

sábado, 24 de março de 2012

Sentimentalismo


Essa menina tem toda essa confusão no olhar, sente demais a pobrezinha, tem um coração dentro de si que emana meiguice. Ela é daquelas que sente-se segura no calor de um abraço apertado, e expressa-se por olhares, ora confusos, ora claros, ora muito sentimentalistas, ela implora por atenção. Pobrezinha.
De noitinha, a pequenina se encolhe num cantinho do quarto e chora todas as lágrimas que guardou ao longo do dia, todos os sapos que teve de engolir, então dorme, dorme feito anjo e acorda logo de manhãzinha com um sorriso no rosto, que vez por outra é falso, ela sabe que quando mostra-se sentimentos demais, a tendência é sofrer em dobro. Apesar da pouca idade, a nossa menina já sofreu demais, muitos creem que é frescurinha, coisa de menina-mimada, pode até ser que tenha um bucado de exagero nisso tudo, mas que dói, ah, disso não tenho dúvidas. Então, seu moço, cuida dela direitinho, viu? É só fazer chamego e dar beijinho ─ pra sarar as feridas de dentro.

sábado, 17 de março de 2012

Escritor alienado


Sexta-feira à noite. TV ligada passando um filme meloso com a Julia Roberts, notebook aberto no word, um bloquinho sem pautas com algumas palavras rabiscadas, garrafas de Smirnoff e o cinzeiro coberto pelas cinzas de um cigarro tragado por inteiro, sons dos carros lá fora, pessoas bêbadas dizendo bobagens na calçada - ou no meio da rua. 
- Caralho, eu não consigo escrever porra nenhuma! ─ esbravejou.
Arrancou mais uma folha do bloco, abriu mais uma página no notebook, desligou a televisão e bebeu mais um pouco, mandou alguns palavrões pela janela contra os bêbados jogados na calçada. Minutos depois estava vomitando as palavras sobre o papel, contando suas dores mais secretas, sua ânsia, seu vício em álcool e cigarros e a vontade proibida de pegar aquela mulher e beijar-lhe a boca até perder o ar. Coisa de escritor maluco, pensar que o pobre do leitor tem de entender suas alienações e conturbações internas.
Então, nosso escritor, com todo aquele sentimentalismo típico e a escrotidão embutida, finalmente, deu-se por si, o que faltava não era a familiaridade com as palavras ou a chamada ‘inspiração’, faltava o amor, não no coração ─, pois lá, tinha de sobra ─,faltava um amor pra chamar de seu. Uma moça bonita a quem poderia acariciar as pernas por debaixo do edredom.
Escritor alienado, que sacrifica  a própria vida afim de criar personagens que satisfaçam seus sonhos esdrúxulos mal-vividos.